A Autoria de Hebreus e o Texto Grego

  A pergunta “quem escreveu Hebreus?” até hoje reverbera em um momento ou outro no debate teológico. A erudição teológica, de maneira geral, possui certo agnosticismo com relação à autoria da Carta. Talvez a única certeza que a maioria dos teólogos afirmem é que certamente tal epístola não provém do apóstolo Paulo.
De maneira interessante, não era esse o consenso de grande parte da igreja no período patrístico, nem tampouco o consenso universal da cristandade a paritr de 400 d.C. De maneira geral, a igreja defendeu vigorosamente a autoria paulina da Espístola aos Hebreus. Quais os motivos para tal quebra de consenso? É possível ainda defender a autoria Paulina? É o que veremos a seguir.

– A Igreja Primtiva e Hebreus:

As primeiras citações de Hebreus provêm bem cedo na história da igreja. A Epístola de Clemente de Roma aos Coríntios é recheada da fraseologia e dos temas teológicos de Hebreus. No lado oriental da Cristandade, de fala grega, a epístola é contada como paulina, ainda que o estilo divergisse do estilo de Paulo. Segundo Pateno e Clemente de Alexandria, o autor da Epístola seria o apóstolo Paulo, porém o estenográfo (redator) da carta seria outro (Clemente de Alexandria sugere que foi Lucas que atuou como o redator). Um dos mais antigos manuscritos gregos do Novo Testamento, o papiro 66(século III depois de Cristo), coloca Hebreus logo após Romanos. A frase de Orígenes, registrada por Eusébio de Cesaréia em sua História Eclesiástica, é muito usada para sustentar um desconhecimento da autoria da carta: “Quem escreveu a carta, só Deus sabe”. Todavia, um exame mais minucioso da frase mostra que Orígenes defendeu a autoria paulina:
 “Mas eu diria que os pensamentos são do apóstolo [Paulo], mas o discurso e a fraseologia pertencem a alguém que registrou que disse o apóstolo, e anotoulivremente o que o seu mestre dizia… mas só Deus sabe quem realmente escreveu a epístola…de acordo com alguns, que Clemente, que era bispo de Roma, escreveu a epístola; de acordo com outros, que foi escrita por Lucas, que escreveu o Evangelho e os Atos”¹.
Fica claro, a partir do contexto, que Orígenes não atribui unicamente à onisciência divina quem é o autor da epístola, mas sim seu redator. Uma prova cabal que Orígenes cria na autoria paulina da espítola provém de sua declaração em sua magnum opus, Contra Celso. Neste livro, ao refutar o filósofo pagão Celso, Orígenes declara:
“Pois está escrito na carta de nosso Paulo aos Coríntios, gregos, cujos costumes ainda não tinham sido purificados: ‘Dei-vos a beber leite, não alimento sólido, pois não o podíeis suportar. Mas nem mesmo agora podeis, visto que ainda sois carnais. Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e não vos comportais de maneira meramente humana’ ( 1 Co 3,2-3). E este mesmo apóstolo, sabendo que certas verdades são o alimento da alma adiantada na perfeição, e outras, dos neófitos, são comparáveis ao leite das criancinhas, declara: ‘Precisais de leite, e não de alimento sólido. De fato, quem ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da Justiça, pois é criancinha! Os adultos porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para dicernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido’ (Hb 5,12-14)” (Contra Celso 3.53).²
Ainda que na igreja do ocidente houvessem dúvidas no que tange a autoria³, tais dúvidas se dissiparam devido a ampla aceitação da Epístola em várias igrejas, e por fim a aceitação que a Epístola provinha do apóstolo Paulo.
 A Opinião contemporânea acerca da autoria de Hebreus e a evidência interna:
A maioria dos estudiosos, em especial a partir do século XVIII e e XIX, começaram a lançar dúvidas acerca da autoria paulina de Hebreus. Dentre as maiores objeções, há as seguintes:
1. A ausência da tradicional identificação paulina, contida em todas as outras epístolas.
2. O estilo literário da epístola, que divergia em muito em termos do estilo Paulino.
3. A evidência que o autor na verdade não participara do círculo apostólico (Hb 2.3).

 

A primeira objeção, ainda que válida, pode ser explicada de várias maneiras. Uma possível explicação se daria pelo fato de aqui, Paulo não estar escrevendo para uma igreja gentítilica ou predominamente gentílica, mas sim para uma das igrejas mais primitivas do cristianismo: uma igreja judaica. Aqui, Paulo não precisa reforçar sua imagem como apóstolo, pois ao que tudo indica, todos os ouvintes sabiam quem ele era (Hb 13.22). Aqui, Paulo fala como “hebreu de hebreus”, seu estilo fugiria do convencional, pois não se trata simplesmente de uma epístola, mas sim de uma palavra de exortação (gr. του λογου της παρακλησεως Hb. 13.22).  Em Atos 13.15, Lucas relata que Paulo e Barnabé entram em uma sinagoga e são convidados a dar uma “palavra de consolação” (λογος εν υμιν παρακλησεως), quem profere a palavra, aqui, é Paulo. O contexto hebraico da carta aos hebreus e sua natureza homilética só reforçam a autoria paulina.

 

A segunda objeção, bastante válida, tem ganhado, todavia, objeções de peso  através do trabalho de David Alan Black, professor de grego do Southeastern Baptist Theological Seminary e através da teóloga alemã Eta Linnemann. Em seu livreto monumental The Authorship of Hebrews – The Case for Paul (A autoria de Hebreus – Em defesa de Paulo). Black traça vários paralelos de expressões gregas encontradas em Hebreus e nas cartas paulinas, indo até mesmo a temas teológicos. De maneira semelhante, o artigo científico de Eta Linnemann, A Case for a Retrial of the Epistle of Hebrews (Um caso de Reanálise da epistola aos Hebreus), mostra claramente evidências linguísticas que estão de acordo com a linguagem paulina.

 

Mesmo um exame comparativo com a tradução em português é possível captar semelhanças temáticas e às vezes linguísticas entre o Paulo e Hebreus. Dentre as quais destacamos a seguir:

 

E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis. (1 Co 3.1-2)

 

Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite, e não de sólido mantimento. Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino. Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal. (Hb 5.12-14).

 

Porque tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos, e aos homens. (1 Co 4.9)

 

Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados. (Hb 10.33)
Como tenho por justo sentir isto de vós todos, porque vos retenho em meu coração, pois todos vós fostes participantes da minha graça, tanto nas minhas prisões como na minha defesa e confirmação do evangelho (Fp 1.7).
Porque também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens, sabendo que em vós mesmos tendes nos céus uma possessão melhor e permanente (Hb 10.34).
Há aqui, uma interessante variante tanto a ARC quanto as demais traduções leem “prisioneiros” ao invés de “minhas prisões”. A  variante “Minhas prisões” (gr. Desmois mou) é atestada por 92,1% dos manuscritos gregos, de acordo com Pickering, e a segunda, “prisioneiros”  (gr. Desmois) apenas 6,3%. A frase encontrada no texto tradicional é de acordo com o conceito de paulina de sua prisão (Fp 1.7). Assim, o texto tradicional indica (juntamente com outras evidências) que a visão tradicional da autoria paulina do livro de Hebreus é muito provável.
Se for possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens (Rm 12.18)
Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).
Depois desse comparativo, o leitor é covidado a fazer um comparativo do epílogo de Hebreus com os demais epílogos das outras cartas paulinas.  O epílogo tem forte sabor paulino:
Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente. E rogo-vos com instância que assim o façais, para que eu mais depressa vos seja restituído. Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas, Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém. Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra desta exortação; porque abreviadamente vos escrevi. Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei. Saudai a todos os vossos chefes e a todos os santos. Os da Itália vos saúdam.
A graça seja com todos vós. Amém.
Por último, resta a objeção levantada com base em Hebreus 2.3: “Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram”.
A objeção é levantada pelo fato do autor parecer pertencer a segunda geração de discípulos. Todavia, é importante ressaltar aqui é que o autor não afirma ter recebido a revelação dos apóstolos, mas sim a confirmação por parte dos apóstolos. Ora, isso está totalmente de acordo com o que sabemos de Paulo.
Confrontando a opinião corrente, Eta Linnemann dá sua explicação de Hebreus 2.3:

 

“A segunda metade de Hebreus 2.3 está em aposição com o conceito de ‘grande salavação’. Dessa ‘grande salvação’ eles obtém confirmação. A ‘grande salvação’ é o sujeito, não o ‘nós’, no qual o autor da epístola se coloca juntamente. Ocorre unicamaente com relação à salvação. Não siginifica aqui ‘ensinar’ ou ‘fazer discípulos’, mas ‘estabelecer’, ‘confirmar’, ‘garantir’. Porque os mais jovens ouviram a proclamação de grande salvação do Senhor confirmada, eles são o ‘nós’ pela qual foi garantinda, não seus pupilos.Hebreus 2.3 certamente exclui o autor de ser inequivocadamente um jovem seguidor de Jesus de ser o autor de Hebreus, mas não o apóstolo Paulo, que nunca foi um inequívoco jovem seguidor de Jesus! O que se lê aqui então não entra em contradição com o que lemos em Gálatas 1.16-17)”.

 

Conclusão
Apesar de hoje majoritariamente a autoria paulina ser descartada, ela não ficou todavia, sem defensores de peso na atualidade. Os argumentos levantados por David Alan Black e Eta Linnemann são fortes o bastante para ao menos se considerar o apóstolo Paulo como o mais provável candidato à autoria da carta, se não provam, realmente, que o apóstolo dos Gentios, certamente é o autor da epístola. Certamente que optar pela defsa da autoria paulina, terá como aliado o peso da grande tradição cristã. Tradição essa, que como Black e Linnemann mostram, tem muito a nos dizer.
Soli Deo Gloria.

Notas:

1. CESARÉIA, Eusebio de. História Eclesiásica. Tr. Lucy Iamakami. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.p. 227.
2. ALEXANDRIA, Orígenes de. Contra Celso. Tr. Orlando dos Reis.2° ed. São Paulo: Paulus,2011. p.251
3. A igreja no ocidente aceitou de maneira definitiva o testemunho paulino de Hebreus através dos escritos de agostinho e Jerônimo. Na época da reforma, tanto Lutero quanto Calvino discordavam da autoria paulina de Hebreus. Lutero sugeriu Apolo como o mais provável candidato. Todavia, é de se estranhar que a igreja em Alexandria, de onde Apolo provinha, nunca sugeriu ter sido ele o seu autor.

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Textos Natalinos(II): A variante de Lucas 2:14

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Milhares de cristãos celebraram ontem (25/12) o nascimento do  Senhor Jesus Cristo. Ainda nesse mesmo clima de celebração do natal (que tradicionalmente termina apenas em 06 de janeiro¹), passemos a olhar com atenção o texto grego de Lucas 2.14, um do textos mais belos e recitados do novo Testamento, o cântico anglical.

Não são poucos os cartões dessa época que trazem a leitura do texto a seguir:

“Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade”. (Versão de Figueiredo).

Essa foi a leitura a qual me habituei na infância católica 9ainda que popularmente se falasse “nas alturas” ao invés de “no mais alto dos céus”), porém quando li o texto de Lucas na versão corrigida, claramente ficou perceptível a diferença na última linha do verso:

“Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (ARC)

Porém, um leitor da Revista e Atualizada note uma sutil diferença também:

“Glória a Deus nas maiores alturas,

e paz na terra entre os homens,

a quem ele quer bem” (ARA).

 

A leitura da Nova Versão Internacional tentar esclarecer ainda mais o sentido dado na Atualizada:

“Glória a Deus nas alturas,

e paz na terra aos homens

aos quais ele concede

o seu favor” (NVI).

As diferenças nas traduções seriam apenas uma questão de tradução? é o que veremos a seguir.

Explicando as variantes:

A diferença em português, na verdade, se dá pela diferença entre os textos gregos adotados pelas versões: A  ARC segue a leitura encontrada no Texto grego Tradicional do novo Testamento, enquanto que a tanto a ARA quanto a NVI seguem a leitura do Texto grego eclético (conhecido como crítico). Uma olhada na passagem em ambos os textos ajuda a esclarecer a diferença, que em grego, se dá pela diferença de uma única palavra e sua flexão: eudokia (ou eudokias).

O texto Tradicional segue a leitura encontrada na grande maioria dos manuscritos gregos, que apresentam a palavra eudokia, como se lê a seguir:

δοξα εν υψιστοις θεω

και επι γης ειρηνη

εν ανθρωποις ευδοκια (Elzevir, 1624).

Já no texto Crítico o texto é lido assim:

Δόξα ἐν ὑψίστοις θεῷ

καὶ ἐπὶ γῆς εἰρήνη

ἐν ἀνθρώποις εὐδοκίας. (NA 27 edition).

A diferença parte de uma única letra: o “sigma” grego, que possui um som de “s” no final do cântico, faz toda a diferença, sem o sigma final, a palavra torna-se o nominativo eudokia, enquanto que com o sigma, um genitivo (da boa vontade).  Há uma outra  leitura variante  econtrada em alguns manuscritos que omitem a peposição “en”, lendo-se então  se lê “ἀνθρώποις εὐδοκίας” (“aos homens de boa vontade”), essa é a leitura encontrada nas tradição latina dos textos bíblicos, tanto da Vetus Latina quanto na Vulgata,o que explica a popularidade dessa versão no Brasil e outros países influenciados pelo catolicismo. Os críticos textuais, porém, favorecem muito mais a leitura como regisrada no Texto Crítico.

Oos defensores do Texto Crítico afirmam que a ausência do sigma no final da palavra indica claramente um lapso textual por parte de um escriba descuidado, oque acabou por deixar a leitura como “ἐν ἀνθρώποις εὐδοκία” (“Boa vontade para com os homens”). Tal explicação é possível, todavia, é difícil imaginar como um lapso textual está presente na grande massa dos manuscritos gregos e versões antigas como a Harclana síriaca e a Peshitta (esta última uma das traduções mais antigas da Bíblia), os pais da Igreja que falavam grego geralmente liam eudokia ao invés de eudokias, como por exemplo eusébio de Cesária, Dídimo, e Cirilo de Alexandria²,  o que claramente favorece a antiguidade da leitura tradicional.Não há motivo substancial para abandonar a leitura tradicional do Texto grego. De maneira interessante, os dois manuscritos que formam a base do texto Crítico, Alef e B, tiveram o sigma final apagado do manuscrito³ (ainda que é possível ver o resíduo da leitura original). Não há base suficiente no contexto da passagem que indique uma certo intencionalidade da boa vontade de Deus ser apenas para “aqueles a quem ele ama”, mas sim, sua boa vontade para com toda a humanidade, como refletido em João 3.16,

Celebrando o dom de Deus:

Amensagem do hino claramente indica algo universal, feito por Deus, em favor dos homens. O texto de Lucas reflete a excelência e importância do nascimento de Cristo. Não se trata simplesmente de um nascimento, mas de uma pessoa que “se fez carne” (Jo 1.14). O Natal reflete uma verdade teológica fundamental, em que celebra-se uma doutrina basilar da Fé Cristã: a Encarnação do Verbo e sua habitação entre os homens.  Então, inicia-se o evangelho. É assim que o anjo anuncia o nascimento do salvador aos pastores: “eis que vos evangelizo com uma mensagem de grande alegria”. Vemos porque Jesus encarnou e nasceu: para a nossa plena salvação. Os pais da igreja foram unânimes em declarar tal verdade fundamental:

“Se o homem não necessitasse ser salvo, de nenhuma maneira o Verbo teria se encarnado” (Irineu).

“Não existe outra causa da encarnação senão esta; Deus nos viu perdidos, perecidos, oprimidos pela tirania da morte, e se compadeceu de nós” (João Crisóstomo).

É por isso que ainda que não seja uma festa obrigatória dentro do escopo da Escritura, é mais do que natural haver alegria por parte do crente. Não há como não nos alegrarmos ao meditarmos no nascimento do Salvador. Quando lemos o evangelho de Lucas e vemos a canção celestial, sentimo-nos compungidos a participar de tal festa. E não há como não querermos participar. Assim como os pastores, sentimos o desejo de ir até Belém, pois ali vemos o céu descendo na terra, ali vemos algo ainda melhor que a canção angelical. Ali vemos Deus manifestado em Carne (1Tm 3.16). E como os magos, sentimos profunda alegria.

Em Cristo contemplamos a glória de Deus, a paz é anunciada e trazida aos homens, e a boa vontade graciosa de Deus é expressa. É por isso que cantamos com os anjos:

Glória nas alturas a Deus.

Sobre a terra, Paz.

Para os homens, Boa-vontade.

Que a graça benevolente de Deus esteja sobre o seu coração, trazendo-lhe a paz da salvação em Cristo, porntanto continue a celebrar o natal, para a glória de Deus!

Amém!

Soli Deo Gloria!

Notas:

1. Diferente dos cristão ocidentais, a Igreja Orotdoxa oriental celebra o natal no dia 07 de janeiro, ao invés de 25 de dezembro. Devido a certas diferenças históricas entre o calendário juliano e gregoriano.

2. O  teólogo erudito James Snapp fez um excelente estudo acerca das variantes eduokia e eudokias. Acesse o texto em inglês clicando aqui.

3. Como atestado por Snapp.

 

Texto Natalino: A variante Textual de 1 Timóteo 3.16

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Estamos no mês de celebração do Natal, mês esse no qual a igreja cristã celebra o nascimento do Senhor Jesus Cristo, o salvador do mundo. Nessas ocasiões, diversos textos bíblicos relacionados ao tema dessa época são lidos nas igrejas, em especial as belas narrativas da infância narradas nos evangelhos de Mateus e Lucas. Todavia, há também outros trechos no Novo Testamento que citam o nascimento de Jesus de maneira resumida (cf. Rm 1.3, Jo 1.14). O apóstolo Paulo, em especial, faz uma declaração magnífica acerca da encarnação de Jesus e sua subsequente obra que se seguiu em prol da humanidade pecadora em 1 Timóteo 3.16. Esse texto, além de possuir extrema relevância por resumir de maneira brilhante pontos essenciais da fé cristã, possui também uma intrigante variante textual.

Análise do Texto:

O texto de 1 Timóteo 3.16, nas versões clássicas:

“E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória” (Almeida- IBB).

“Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória”. (ARA)

Agora, nas versões Fiel e na NVI:

E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.” (ACF).

“Não há dúvida de que é grande o mistério da piedade: Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória” (NVI).

Ao fazer uma rápida comparação percebe-se que tanto a a Fiel quanto a NVI (Sendo que esta última não segue sua contraparte americana), trazem “Deus” em vez do indefinido “aquele” da Corrigida e da Atualizada. As razões disso se devem por causa da base textual grega do Novo Testamento que as edições em português usam.
Enquanto que a leitura da Atualizada e IBB seguem a leitura encontrada no Texto Crítico, a Fiel e (surpreendemente) a NVI seguem a leitura encontrada no Texto Bizantino reletido nas edições clássicas do Textus Receptus, do Texto Patriarcal e do Texto Majoritário(1).  Cabe agora ver o fundamento manuscritológico que diferencia o Texto Crítico do Bizantino.
Análise Manuscritológica:
O Texto Crítico (também chamado de Eclético) se baseia fundamentalmente nos dois manuscritos essencialmente completos do Novo Testamento, que remontam ao 4° século, intitulados Aléf e B(conhecido também como Vaticanus). Esse manuscritos formam o chamado Texto-Tipo Alexandrino( que corresponde ao formato de texto que se encontravam na região de Alexandria, no Egito). Sendo portanto, os mais antigos, as leituras variantes encontradas nesses manuscritos formam a base para o Texto-Crítico. Esse texto favorece a tradução “aquele que se manifestou em carne”.
Já as edições do Textus Receptus, Patricarcal e Majoritário seguem o chamado Texto-Tipo Bizantino (devido serem em grande parte oriundos de Bizâncio, mas que provinham das mais variadas regiões do Império Bizantido, encontrado na grande massa dos manuscritos gregos existententes, que vão do 5° ao 16° século. Esses manuscritos formam a base do Texto da Reforma (Receptus) e das traduções clássicas como  Almeida, King James, Reina-Valera, etc. Esse texto favorece a leitura “Deus manifesto em carne”.
O texto Crítico de Nestlé-Aland, em sua mais recente edição (28), se lê:

“καὶ ὁμολογουμένως μέγα ἐστὶν τὸ τῆς εὐσεβείας μυστήριον·

ὃς ἐφανερώθη ἐν σαρκί,

ἐδικαιώθη ἐν πνεύματι,
ὤφθη ἀγγέλοις,
ἐκηρύχθη ἐν ἔθνεσιν,
ἐπιστεύθη ἐν κόσμῳ,
ἀνελήμφθη ἐν δόξῃ.

No Texto Bizantino, na edição de Stephanus(1550), se lê:
καὶ ὁμολογουμένως μέγα ἐστὶν τὸ τῆς εὐσεβείας μυστήριον·
Θεὸς ἐφανερώθη ἐν σαρκί ἐ
δικαιώθη ἐν πνεύματι
ὤφθη ἀγγέλοις
ἐκηρύχθη ἐν ἔθνεσιν
ἐπιστεύθη ἐν κόσμῳ
ἀνελήφθη ἐν δόξῃ
O Texto Crítico traz “ὃς “(gr. hos), já o Textus Receptus traz “Θεὸς” (gr.Theós). A diferença entre essas duas leituras  é passsivel de explicação através da história dos manuscritos, o uso de “hos” com “Theós”  certamente se originou através do uso de Nomina Sacra nos manuscritos gregos.
Uma prática comum dos copistas cristãos era escrever de maneira curta e em mai[icula alguns nomes sagrados, em especial o nome de Deus, Jesus e do Espírito Santo. Assim sendo, o nome “Θεὸς” nos manuscritos gregos se escrevia “ΘΣ” (com um pequeno traço em cima). Já “ὃς” poderia aparecer como “OC”(sem traço). A disrepância entre o texto alexandrino e bizantino se dá justamente por algum equívoco de transmissão. dentre as possibilidades há  a sugerida  que na verdade a leitura majoritária, “theós” foi uma adição posterior feia por escriba ortodoxo não contente com a forma do texto. Já os proponentes do Texto Receptus/Majoritário afirmam que “hos” pode ter muito bem se originado de um pequeno erro de um escriba ao contemplar a a Nomina Sacra “ΘΣ” com o traço superior e a marca da letra “theta” apagada, levando-o a entender “theós” como “hos”. “Theós”, portanto, seria a leitura original.
Análise interna:
Quando se analisa a estrutura interna do texto, as leituras “hos”(quem) e “ho”(que) apresentam algumas inconsistências gramaticais, como notado por Wilbur Pickering:

“Uma anomalia gramatical é introduzida. “Grande é o mistério da piedade, quem se manifestou em carne” é pior em grego do que o é em português. “Mistério” é do gênero neutro enquanto “piedade” é feminino, mas “quem” é masculino!…em um esforço para explicar o “quem”, é comumente argumentado que a segunda metade do verso 16 foi uma citação direta de um hino, mas onde está a evidência para esta alegação? Sem evidência, a alegação foge da pergunta por assumir o fato como provado.

Que a passagem tem algumas qualidades poéticas não diz  nada mais  que  ela
tem qualidades poéticas. “Quem” é sem sentido [gramatical], de modo
que a maioria das versões modernas que seguem o texto da UBS toma aqui ações evasivas. A redação em latim, “o mistério … que,” pelo menos faz sentido.
A verdadeira redação, como atestado por 99% dos MSS gregos, é ‘Deus.'”(2)
A análise Pickering é pungente, em especial se considerarmos citações de alguns pais da Igreja acerca dessa passagem.
1 Timóteo 3.16 e os Pais da Igreja:
Como demonstrado pelo trabalho de John W. Burgon ( em seu ivro The Revision Revised), a leitura “Deus manifesto na carne” é encontrada em vários Pais da Igreja, como Inácio, Cirilo de Alexandria, Gregório de Nazianzo e Crisóstomo(2). Uma dessas referências é facilmente encontrada nos escritos de Inácio em português. Em sua Epístola aos Efésios, Inácio afirma:
“Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não-gerado, Deus feito carne,  Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida passível e agora impassível, Jesus Cristo nosso Senhor.
Um astro brilhou no céu mais do que todos os astros,  sua luz era indizível e sua novidade causou admiração. todos os astros, inclusive o sol e a lua, formaram um coro em torno do astro, e ele projetou sua luz mais do que todos. Houve admiração. Donde vinha a novidade tão estranha a eles? então, toda a magia foi destruída, todo laço de maldade foi abolido, toda ignorância foi dissipada e todo o reino foi arruinado, Quando Deus apareceu em forma humana, para uma novidade de vida eterna”(4)
A afirmação de que tal leitura não é antiga cai por terra diante dos escritos patrísticos.
Considerações finais:
Diante dos fatos apresentados, tanto a coerência interna do texto, as abundantes citações patrísticas (como exemplificado por Inácio), e com a grande massa de manuscritos a favor, deve-se reconhecer  “Deus” deve ser reconhecida como leitura original e a verdade que ele expressa, poderosa.
Em Jesus, vemos de maneira clara o intenso desejo de Deus manifestado desde o antigo Testamento, através das Teofanias, do Anjo do Senhor, do tabernáculo, dos templos de Salomão e de Zorobabel: Deus habitar entre os homens. Ele fez isso de de forma plena. Deus é real e verdadeiro, não é uma simples ideia ou conceito filosófico, mas um Deus pessoal que amou tremendamente os homens para o louvor da Sua Glória. Moisés olhou para Deus “de costas”. Hoje, podemos contemplar a face de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Nas palavras de David Murray(5), Cristo é “a visível face de Deus”³. Em Cristo, cumpre-se o anelo do salmista Davi,  Deus não escondeu o Seu rosto (27:8-9), benditos são aqueles que não viram e creram, e sabem que um dia o Verão (cf. Jo 20:29/ Mt 5:8), pois ele é Deus conosco (Mt 1:23, cf. Is 7:14) .
Feliz Natal!
Soli Deo Gloria
Notas:
1. A versão NVI nesse texto acaba por transmitir uma forma docética de doutrina (cristo manifestando em um corpo), mas ainda assim, é superior a versão americana (“He appeared in  Body”).
2. Wilbur, Pickering. Qual o Texto Original do Novo Testamento?. Disponível nesse link.
3. ANTIOQUIA, Inácio de. In: Padres Apostólicos. Tr. Ivo Storniolo, euclides M. Balancin.  São Paulo: Paulus, 1995. p. 84; 88
4. Essas citações patrísticas podem ser encontradas clicando aqui.
5. MURRAY, David. Jesus on Every Page. Nashiville: Thomas Nelson Publishers, 2013. p. 76

A Reforma Protestante e seu texto grego.

Há cerca de um mês celebrou-se ao redor do mundo os 500 anos da Reforma

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Erasmo, pintura de Hans Holbein.

Protestante. Em 31 de Outubro de 1517, o monge alemão martinho Lutero afixou na porta da igreja do castelo de wittemberg, na alemanha, suas famosas 95 teses contra a venda de indulgências. Pela graça de Deus, Martinho Lutero, João Calvino e outros reformadores foram instrumentos de transformação da vida, da fé e do pensar cristão há 500 anos.

Todavia, poucos estão cientes que um ano antes o erudito humanista holandês Erasmo de Rotterdã publicou a primeira edição do Novo Testamento grego, que mais tarde ficaria conhecido como Textus Receptus. A publicação do Novo Testamento grego foi o ponto de apoio necessário para a redescoberta do evangelho feito por Lutero. Através do estudo do texto original, Lutero pode levar adiante a Reforma.  Não somente Lutero, mas também Zuínglio, Calvino e os demais reformadores foram igualmente abençoados e impactados pelo Novo Testamento grego. Todas as traduções da Reforma e pós-reforma (Lutero, Tyndale, Rena-Valera, Almeida) derivam de edições que seguem a mesma linha de tradição do texto grego publicado por Erasmo.

É de se admirar que poucos hoje valorizem o Textus Receptus, ainda que o trabalho deErasmo tenha sido esmerado e que este, apesar de estar ciente da maioria das leituras variantes que conhecemos hoje, seguiu a tradição bizantina e majoritária reconhecida e constantamente copiada pela igreja grega no decorrer dos séculos. Podemo dizer que o Textus Receptus ser publicado às vésperas da Reforma não é coincidência, mas  sim, providêcia divina. Sem Reforma não víveriamos hoje um cristianismo bíblico, porém sem o texto grego, não teríamos a Reforma, e caso tivéssemos, não seguiria um rumo tão biblicamente preciso quanto seguiu. Glória a Deus pela Reforma, glória a Deus por sua maravilhosa providência!

Amém.

Soli Deo Gloria!

 

 

A História e as edições da Almeida Corrigida Fiel (1994-2011) – Parte 2: As Mudanças na ACF.

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Almeida Corrigida Fiel – 2011

Como visto no artigo anterior, a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF) procura se ater fielmente aos textos originais utilizados por João Ferreira de Almeida, tanto no aspecto linguístico utilizado por ele (fraseologia, sintaxe) quanto pelas variantes do Textus Receptus que ele consultou, tudo isso aliado a uma atualização do vocabulário (retirada de arcaísmos)e melhoria na tradução de alguns versos e dos tempos verbais no Antigo Testamento -sendo este último o que mais sofreu mudanças na tradução. Porém, houve uma constante revisão, em especial do Novo Testamento,  durante os anos de 1994 até a última revisão, em 2011. A maioria das mudanças veio para melhor, o que não significa que não haja falhas e até mesmo um pequeno retrocesso na versão. Tais mudanças serão destacadas a seguir:

 

Mudanças gerais de tradução:

Dentre as mudanças positivas encontram-se a busca por uma maior precisão em tradução de alguns termos hebraico e gregos. Nota-se um leve distanciamento na fraseologia e expressões do Antigo Testamento quando a ACF-2011 é comparada com as edições de 1994,1995,2007 e a ARC-95, o que sugere uma profunda revisão do texto hebraico em especial (notável no livro de salmos e Provérbios). O Novo Testamento possuiu também algumas mudanças mais sutis e perceptíveis quando comparada com as edições de 1994-2007 (Cf. 1 Co 9.5; 1 Jo 3.6 ; Fp 3.2). O fruto do trabalho foi de excelência e deve ser elogiado, ainda que  vezes a linguagem perca a referência histórica da versão de Almeida com outras traduções da Reforma, como a King James e a Reina-Valera.

Além dessas alterações mais positivas, houveram também algumas mudanças que não foram adequadas a partir da edição de 2007.

Mudanças Manuscritológicas.

As mudanças negativas se referem mais propriamente as revisões que envolvem questões textuais de manuscritologia bíblica. A partir da edição de 2007, buscou-se por parte dos editores aproximarem a ACF da tradução original de Almeida, que fora publicada em 1681. Com isso, algumas revisões feitas na tradução de Almeida ao longo dos anos, inclusive a revisão feita pela Trinitarian Bible Society no século 19, foram descartadas em favor das leituras originais da versão de 1681. O resultado de tal empreitada, pode-se dizer, não alcança os objetivos pretendidos de forma satisfatória. O problema mais sério pode ser encontrado a seguir:

a) O uso de emendas Conjecturais de Theodoro Beza.

Em geral é reconhecido que Almeida utilizou essencialmente as edições de Theodoro Beza¹ para realizar a tradução, e ainda que o texto de Beza tenha sido uma das melhores e edições do Texto Receptus e uma das mais utilizadas (seu texto foi um dos mais utilizados pelos tradutores da King James Version), há um problema inerente ao texto de Beza em particular, o uso de emendas conjecturais na edição do texto grego.

Na disciplina da crítica textuais, o termo “emenda conjectural” é um artificio utilizado pelo editor textual em reconstruir, a partir de uma conjectura, a leitura supostamente original que não se encontra mais disponível em nenhum manuscrito, ainda que com isso, a leitura existente nos manuscritos seja alterada e até mesmo reescrita.  Beza foi um dos pós-reformadores que mais utilizou tal artifício.

O resultado foi que duas emendas conjecturais de Beza foram inseridas na King James Version e uma pode ser encontrada na tradução original de Almeida, que é a leitura de Apocalipse 16.5. A leitura desse versículo, como atestada por praticamente todos os manuscritos existentes, quer gregos, latinos e de outras versões e traduções é a que segue:

“Justo és tu, ó Senhor, que és, que eras, e santo és, porque julgaste estas coisas” (Ap 16.5b – ARC)

Beza sentiu-se incomodado com tal leitura, fazendo a mudanças de “santo és” (ο οσιος – “O Santo” – ARA) para “o que virá” (ο ερχομενος), assim a leitura ficou assim:

“Justo és tu, ó Senhor, que és, que eras, e que hás de vir, porque julgaste estas coisas” (Ap 16.5b – ACF 2007)

Beza justificou-se de tal mudança nas notas latinas da edição de seu texto:

A publicação usual é “και ο οσιος”, que mostra uma divisão, ao contrário de toda a frase que é tola, distorcendo o que é apresentado nas escrituras. A Vulgata, no entanto, se é articuladamente correta ou não, não é adequada ao fazer a mudança para “οσιος, Sanctus”, uma vez que uma seção (do texto) desgastou a parte após “και”, o que seria absolutamente necessário na conexão com “δικαιος” e “οσιος”. Mas aqui com João permanece uma completude onde o nome de Jeová (o Senhor) é usado, como dissemos antes, (Ap. 1: 4); Ele sempre usa os três em estreita colaboração, portanto, é certamente “και ο εσομενος”, por que ele o passaria neste lugar? E assim, sem duvidar da autêntica escrita neste manuscrito antigo, restabeleci fielmente no bom livro o que certamente estava lá: “ο εσομενος”. Então, por que, verdadeiramente com razão, escreva “ο ερχομενος” como está antes em outros quatro lugares, ou seja, 1: 4 e 8? De igual modo, em 4: 3 e 11:17. Porque o ponto é que o justo Cristo, deve vir de lá e trazê-los para serem: assim, de fato, ele parecerá sentar-se no juízo exercendo seus decretos justos e eternos.

Theodore Beza, Novum Sive Novum Foedus Iesu Christi, 1589

Tal leitura está presente na edição de almeida de 1681:

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Apocalipse 16.5 (Almeida 1681)

Tal leitura não está presente em nenhum manuscrito existente, nem em outras edições do Textus Receptus, nem tampouco nas traduções clássicas da Reforma, como as de Tyndale, de Lutero e Reina-Valera. Todas, seguem a leitura normativa. A Almeida Revista e Reformada procurou revisar o versículo, conformando-o mais ao  ao texto original:

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Ap 16.5 Almeida Revista e Reformada – 1847

 

As edições Almeida Fiel de 1994 e 1995 mantinham a leitura encontrada na ARC até a época de 2007. Um possível argumento que pode ser levantado em favo do retorno da emenda conjectural de Beza é devido a algo puramente histórico: é assim que se encontrava originalmente em Almeida, portanto a ACF deve ser “fiel” ao seu originador. Acerca disso duas objeções cabais são levantadas: a primeira é que o que mais importa em uma tradução bíblica é sua fidelidade para com o texto que Deus inspirou, não a uma edição particular. É importante lembrar que a King James  e outras traduções sofreu revisões nos anos posteriores à sua publicação, sendo que o mesmo aconteceu com Almeida através das edições Revista e reformada, da TBS inglesa e a Revista e Correcta posterior. haja vista que tal leitura tinha sido já corrigida, não havia necessidade de ressuscitá-la no texto.

Outro motivo ainda mais importante: há uma leitura encontrada no texto de 1 joão 2:23b, destaca em negrito a seguir, que não se encontra na maioria dos manuscritos gregos e em edições do Texto Receptus, sendo ausente em versões clássicas como a Tyndale inglesa:

“Qualquer que nega o Filho também não tem o pai; e aquele que confessa O Filho tem também o Pai” ( 1 Jo 2.23 – ARC 95)

A parte “b” do versículo também não se encontra nas edições majoritárias de Hodges-Farstad e Robinson-Pierpont e se encontra em itálicos na KJV. Além destes, a Almeida de 1681 igualmente não possuía a parte “b” do versículo:

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1 Jo 2.23b – Almeida 1681

 

Tal parte, entretanto, foi inserida na edição Reformada da TBS:

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1 Jo 2.23 – Almeida Revista e Reformada 1847

 

Todas as Revisões da Tradução de Almeida contém a parte “b” do versículo, inclusive todas as edições da Almeida Fiel. Se o foco das versões de 2007 e 2008 era trazer a Revisada Fiel para mais próximo da versão original de Almeida, porque mudar Apocalipse 16.5 e não 1 João 2.23b? Não haveria aqui um caso de incoerência editorial? Cabe aqui a reflexão da necessidade de se ater ao que as Escrituras propriamente dizem³.

Conclusão

Diante dos fatos apresentados,  é preferível manter as sensatas revisões feitas na tradução de Almeida no decorrer dos séculos. Como as variantes que encontramos em Ap 16.5 e 1 Jo 2.23b que não estão associadas ao Texto Crítico ou trazem prejuízo algum mas sim aperfeiçoam a defesa do Textus Receptus e ao primoroso trabalho de Almeida, a correções feitas pela edição Revista e Reformada devem permacener.

Soli Deo Gloria

Notas:

1. A edição de Beza era bilíngue, com o texto grego editado por ele em paralelo com sua tradução em Latim. Diante disso alguns especulam se Almeida não traduziu o texto a partir do grego, mas do latim. Tal especulação, ainda que possível, não corresponde diretamente aos fatos, pois há trechos no texto latino de Beza que não se encontram em Almeida, como por exemplo uma palavra de Hebreus 6.6 lida como “Se caírem” ( uma emenda conjectural também encontrada na King James Version), enquanto que Almeida segue corretamente o texto grego, excluído o condicional “se”, assim se segue a leitura correta: “E recaírem”.

2. A versão Revista e Reformada, que contava com a expressão “Fiel aos Originais”, foi a primeira Bíblia de língua estrangeira a ser produzida pela Trinitarian Bible Society de Londres. O trabalho de revisão ficou a cargo de uma equipe liderada pelo professor John boys, do Trinity College.

3. A questão textual que envolve 1 João 2.23 será, pela graça de Deus, discutida com mais detalhes em artigo posterior.

Textus Receptus: Estabelecendo definições e particularidades

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Textus Receptus: Edição de Scrivener (Trinitarian Bible Sociey).
Quando se lida com manuscritologia bíblica do Novo Testamento, os ânimos ficam acirrados dos dois lados do debate, os que defendem o Texto crítico e os que defendem o texto bizantino, em especial, os que defendem o Textus Receptus como texto autorizado dos manuscritos bizantinos e as traduções baseadas no Textus Receptus (TR). No Brasil, muitos dos que defendem o TR fazem-se utilizando o combustível de sites batistas fundamentalistas, que a despeito de sua contribuição em muitos aspectos, acaba por obscurecer algumas questões acerca do Texto Recebido e dando combustível argumentativo aos que defendem o Texto Crítico.
É necessário que se tenha uma bordagem bíblica, sensata, protestante e coerente com a fé cristã ortodoxa e confessional ao analisar o TR. Eis alguns princípios importantes para o crente defensor do Texto Tradicional:
Primeiramente é importante que se tenha como certo o axioma que Deus é fiel e preservar plenamente sua Palavra Escrita. A Bíblia não foi perdida e depois encontrada novamente, mas sempre esteve à disposição da igreja (ainda que esta possa ter lhe desprezado em alguns momentos). Dito isto, é importante que se tenha ciência e se saiba fazer a distinção entre  Texto Preservado e as Edições do Texto Preservado. O texto original foi preservado na imensa massa de manuscritos chamados de “bizantinos”, ainda que sejam oriundos das mais variadas regiões do oriente. Esses manuscritos, compilados, compilados e comparados debaixo da “lógica da fé”, foram reproduzidos em um texto impresso bem perto da época da Reforma, e rendendo várias edições com o passar do tempo, todas essencialmente concordantes entre si, que posteriormente foi chamado de “Textus Receptus”.
Não se deve ver o Textus Receptus como uma única edição, mas um grupo de textos que concordam substancialmente entre si
Ainda que o texto original tenha sido preservado, não significa que ele esteja representado com precisão absoluta em toda a edição impressa. Caso houvesse concordância plena, não seria mais unicamente a providência de Deus agindo, mas um verdadeiro milagre equivalente à inspiração dos originais. Por isso, há algumas pequeníssimas variantes entre as edições do Texto Recebido, porém na maioria dos são diferenças de acentuações, grafia ou palavras invertidas (que não alteram o sentido ou a tradução do texto, pois no grego não importam a ordem das palavras, mas as conjugações delas. Há entretanto, pequeníssimas variantes, mas que são ínfimas se comparadas às edições do Texto Crítico. Essas variantes se dão por haver uma leve divergência nos manuscritos bizantinos, e às vezes  uma edição do TR segue uma variante e outra edição segue outra variante.  Por exemplo, em  João 1.28, a edição de Stephanus se lê “Betânia” e a de Beza se lê “Bethabara”. Aqui os manuscritos estão divididos. Um estudo minucioso indica “Bethabara” como a leitura correta, mas é algo que ainda está sendo estudado.  Há pequenas variantes (realmente importantes) nas edições, mas elas são mínimas e não afetam, o sentido e nem enfraquecem a doutrina (como acabam  fazendo os textos críticos, que não passam de uma reconstrução artificial).
Não se deve ver o Textus Receptus como uma única edição, mas um grupo de textos que concordam substancialmente entre si (cerca de 98,5%), formando um  texto que reflete os originais (sendo, portanto, uma edição legítima das cópias fiéis, as apógrafas). Estas edições contêm pequenas variantes entre si, que devem ser estudadas no temor do Senhor e, a meu ver, deveriam ser anexadas a notas de rodapé das edições do TR publicadas atualmente. Um detalhe importante é que essas variantes, pela providência de Deus, estão circunscritas às edições do TR antigas e devem ser avaliadas de maneira bíblica e temente à Deus.
Aos defensores do texto tradicional, é importante manter a confiança que o TR é um texto bastante confiável, legítimo representante do Texto Original e que você pode ler sem medo. Todavia, é importante defendê-lo de maneira sábia, definindo-o dentro do bom-senso santificado e de uma boa teologia protestante-reformada. Procure estudar em oração uma leitura variante que o irmão possa encontrar e não fique receoso. Pois como disse acertadamente Edward F. Hills (cujo livro eu recomendo de todo o coração aoleitor) Temos toda a certeza que precisamos. Uma certeza máxima!
Soli Deo Gloria

A História e as edições da Almeida Corrigida Fiel (1994-2011) – Parte 1.

A versão Almeida Corrida fiel (ACF), também conhecida como Almeida Revisada Fiel (ARF),biblia-sagrada-almeida-corrigida-fiel-acf-4786-mlb4933928907_082013-o publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana, é uma das versões mais apreciadas na língua portuguesa e, juntamente com a Almeida Revista e Corrigida (ARC), publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), é uma das versão mais vendidas no Brasil, dominando cerca de 60% de vendas do mercado editorial de Bíblias no Brasil.

As marcas distintivas da Almeida fiel são a procura por se manter fiel à tradição textual da Bíblia original de João ferreira de Almeida, publicada em Amsterdã e baseada no Textus Receptus de Theodore Beza,e o método de tradução empregado por Almeida e todos os tradutores da Reforma: O método de equivalência formal, que procura reproduzir a estrutura estilística e fraseologias dos originais hebraico, aramaico e grego. Assim como a tradução original de Almeida, a Almeida Fiel possui uma interessante história, sendo que alguns pontos dela serão vistos a seguir.

O prelúdio – a Bíblia Revista e Reformada:

A história da Almeida Fiel começa em Londres no século XIX, quando a recém-fundada Trinitarian Bible Society, localizada em Londres, decidiu publicar uma nova versão da Bíblia em português, sendo que esta seria a primeira publicação da Bíblia em língua estrangeira feita por esta sociedade. O trabalho foi conduzido pelo Reverendo John Bois, do Trinity College, e que resultou na versão Almeida Revista e Reformada. Essa versão procurou atualizar a tipografia, atualização do vocabulário e fazer certas revisões no texto de Almeida. Enquanto isso, outras sociedades Bíblicas e editoras continuaram a publicar sua versão particular de Almeida. Por fim, foi produzida em Portugal a  versão de Almeida conhecida como Revista e Corrigida, que se baseava nas verões anteriores de Almeida (Incluindo a Reformada). Essa versão, baseada totalmente no Textus Receptus, se tornou a versão padrão em língua portuguesa no século XIX e início do XX, fazendo com que a Trinitarian Bible Society não visse mais necessidade de publicação da versão Revista e Reformada. Porém tal cenário logo mudaria no decorrer do século XX.

O Período intermediário: ARC SBB/IBB.

Com a publicação do Texto grego dos eruditos Westcott e Hort em 1881, texto esse que diferia do Textus Receptus em vários  lugares, começou-se a ter uma desconfiança com  a essencialidade das traduções clássicas, como a King James (inglês), a Reina-Valera (espanhol) e obviamente, a Almeida(português). As duas soluções propostas pelas sociedade bíblicas então foram publicar novas traduções da Bíblia, baseadas no Texto crítico de Westcott e Hort se seus sucessores, ou então revisar e atualizar as versões antigas para se ajustarem a este novo tipo de texto grego (haja vista que novas versões tendiam a ser rejeitadas pela igreja, que preferiam a  versões tradicionais). Com isso, a versão Corrigida de Almeida foi progressivamente adotando algumas variantes do Texto Crítico em pequenos lugares. Com o passar do tempo o número de variantes foi chegando a cerca de 2% da Corrigida até a versão de corrigida de 1995.

Das versões da Almeida Corrigida se destacam as publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e pela Impressa Bíblica Brasileira (IBB). A SBB publicou  Ambas as versões possuem  quase as mesmas leituras variantes, com exceção de alguns lugares onde a Corrigida da IBB permaneceu com a leitura original em algumas passagens e manteve o vocabulário arcaico da ARC de 1969.  A ACF reteve um pouco da linguagem da Corrigida-IBB, como se pode notar em algumas passagens como Tiago 3.13:

“Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre, pelo seu bom trato, as suas obras em mansidão de sabedoria” (ARC 1995).

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” (RC IBB)

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre  pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” (ACF).

Algumas passagens da Corrigida da IBB permaneceram nas versões de 1994,1995 e 2007, sendo substituídas na revisão de 2011. Basicamente, essas três versões são quase idênticas entre si, apresentando apenas algumas leves variações

Almeida Fiel: 1994-2011.

A partir do momento que a Sociedade Bíblica Trinitariana se estabeleceu com uma sede no Brasil, procurou-se trabalhar em uma versão que fosse fiel ao trabalho original de Almeida, no caso, a versão deveria respeitar os textos originais utilizados por Almeida: O Texto Massorético de Jakob Ben Chayim e o Textus Receptus, em especial a edição de Theodore Beza. A primeira edição de 1994 manteve ainda algumas variantes que não foram utilizadas por Almeida, assim como a revisão publicada em 1995. A atualização de 2007 procurou resolver esta questão, restaurando todas as leitura variantes da edição original de 1681(Se isso foi totalmente positivo é algo a se tratado no próximo artigo). A revisão de 2001 procurou melhorar a tradução de algumas passagens.

Conclusão:

A Almeida corrigida Fiel merece ser reconhecida como uma legítima (e por padrão, a melhor) representante da tradução original de Almeida. Ainda que algumas passagens acabem por perder certa estilização poética nas versões mais arcaicas como a ARC e a IBB e não serem uma tradução sem erros ou equívocos (algo que só existe idealmente), é um a tradução que honra o trabalho pioneiro de Almeida, e cria, inclusive, um duplo sentido proposital em sua slogan: é uma tradução fiel não somente ao trabalho de J. F. de Almeida, mas também aos próprios originais do Antigo e Novo Testamento, representado nas edições de Ben Chayim e do Textus Receptus.

Soli Deo Gloria

Texto em Foco: 1 Timóteo 1.4

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Nessa análise textual, atentaremos para a passagem de 1 Timóteo 1.4, onde encontramos uma variante textual nos manuscritos gregos, que igualmente se reflete nas traduções bíblicas em português. Vejamos alguns exemplos:

“Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé, assim o faço agora” (ARC-1995).

“Nem se ocupem com fábulas ou genealogias intermináveis, pois produzem discussão em vez de favorecer o propósito de Deus, que tem como fundamento a fé” (Almeida 21).

“E que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis, que causam controvérsias em vez de promoverem a obra de Deus, que é pela fé” (NVI)

Ainda que as traduções modernas traduzam em geral apresentem “edificação” ou “obra”, a palavra traduzida do Texto Crítico  é οἰκονομία (dispensação, administração, sendo a Almeida século 21 aqui uma das poucas a deixar clara sua preferência textual), enquanto que as edições clássicas de Almeida(Corrigida, Corrigida Fiel), é οἰκοδομίαν (edificação, obra). As duas palavras diferem unicamente por uma letra no grego (o “nü” em oikonomia e o “delta” em oikodomia), claramente indicando que houve um erro não intencional por parte de um escriba(ou vários) durante a transmissão do texto. E a questão seria, qual das duas palavras é a leitura original do texto?

A grande maioria dos manuscritos gregos traz οἰκονομία, ou “dispensação”, lê-se então: “dispensação[administração] de Deus”. Essa é a leitura adotada no Textus Receptus de Stephanus, no Texto Majoritário de Hodges-Farstad e no de Robinson-Pierpont, no Texto Patriarcal e nas Edições críticas das Sociedades Bíblicas Unidas(SBU) e da Sociedade Bíblica Germânica – German Bible Society(GBS).

Em contrapartida, οἰκοδομίαν está presente na maioria das edições do Textus Receptus como as de Erasmo, de Beza e dos Elzervir.  Essa variante  está presente na Vulgata Latina, na Peshitta¹ e também no Pai da Igreja Irineu de Lião, no 2º século. Em sua obra clássica Contra as Heresias. Nessa obra fantástica, Irineu inicia citando 1 Timóteo 1.4:

Alguns, ao rejeitar a verdade, apresentam discursos mentirosos e genealogias sem fim, as quais favorecem mais as discussões do que a construção do edifício de Deus que se realiza na fé – no dizer do apóstolo – e, por astuta aparência de verdade, seduzem a mente dos inexpertos e escravizam-nos , falsificando as palavras do Senhor, tornando-se maus intérpretes do que foi corretamente exposto².

A obra de Irineu, originalmente escrita em grego, foi preservada completamente em Latim, porém os primeiros capítulos existem em fragmentos gregos, assim como os últimos foram preservados em outras traduções, indicando assim que a leitura do manuscrito grego de Irineu é “oikodomia”, concordando assim, com uma minoria de manuscritos gregos e com a Vulgata Latina e Peshitta, enquanto que a imensa maioria de manuscritos possuem “oikonomia”.   No estudo para determinar qual a palavra original, por vezes o estudo dos manuscritos é suficiente para favorecer a leitura majoritária. Já que a leitura é encontrada nos manuscritos mais antigos como Álef e B, a maioria dos críticos textuais preferem “oikonomia”. Porém uma consideração interna da passagem, bem como sua teologia são importantes para consideração, vejamos “oikonomia” e “oikodomia” nos escritos do apóstolo Paulo.

-Edificação e Dispensação nos escritos Paulinos: 

Tanto “Oikodomia” e “Oikonomia” fazem parte da teologia paulina, e ambas igualmente possuem são derivada das mesma palavra grega: Oikos(casa), palavra importante usada pelo apóstolo para descrever a igreja – tanto sua natureza quanto sua função. Em 1 Tm 3,15 a ideia de “casa de Deus” (gr. oikos tou theou)  se refere não simplesmente a uma ideia estrutural de igreja – no caso, um templo – Mas sim uma unidade social e espiritual – ou seja, “casa de Deus”, aqui, possui a mesma ideia de “casa de Davi”: a Igreja é a família( oikos) de Deus em Cristo Jesus. No que tange a oikonomia(dispensação) o conceito paulino reflete tanto a organização do plano de Deus refletido no mistério agora revelado em Cristo (Cl 1.25-27), quanto também o administrador desse mistério, no caso em questão, o ministro de Cristo (gr. oikonomos, 1Co 4.1-2)³, daí origina-se a também a ideia vétero-testamentária do Templo Deus, onde o Espírito Santo habita( 1 Co 6.19), sendo a tarefa do ministro e dos membros do corpo de Cristo fazerem tudo para a edificação (1 co 14.26;Ef 4.12).

De maneira interessante, o apóstolo Paulo,quando utiliza a expressão “edificação” utiliza-se de uma flexão apenas da palavra grega, οικοδομην (1 Co 14.3,4,5/26; Ef 4.12), caso οἰκοδομίαν seja a leitura correta em 1 Tm 1.4, seria a primeira vez que o apóstolo utilizaria a palavra flexionada de maneira levemente diferente, o que pode favorecer oikonomia com a leitura correta do texto. Todavia, tal diferença pode ser explicada pela linguagem distinta que Paulo usa nas pastorais, que foram escritas um certo tempo depois das epístolas aos Romanos e aos Coríntios.

Ao analisarmos o texto, percebe-se que a expressão “edificação de Deus” parece se adequar mais ao contexto do assunto que Paulo trata, ao invés de “dispensação”. Quando o apóstolo busca evitar confrontos desnecessários na igreja de Deus, ele sempre visa que as coisas sejam feitas para a edificação (como visto em 1 Co 8.1;14.3-5;26). Já quando trata acerca da “dispensação”, o apóstolo quase sempre relaciona tal palavra à administração de Deus para as nações no contexto da pregação do evangelho (Cf. Cl 1.25-27; 1  Co 9.17, Ef 1.10), ainda que oikonomia, esteja associada fortemente associada com oikodomia, tanto em raiz quanto no uso feito pelo apóstolo Paulo.

Conclusão

Ambas as leituras possuem boas evidências em seu favor. A variante “dispensação” recebe forte apoio, haja vista ser praticamente a leitura encontrada nos manuscritos gregos, inclusive os mais antigos, tendo sido a leitura adotada por Stephanus, Hodges & Farstad, Robinson & Pierpont e os editores da SBU e GBS. Todavia, a variante “edificação” também possui um bom apoio antigo (Irineu, no 2º século), é também uma linguagem paulina e parece se encaixar melhor no contexto da passagem, sendo então adotada pela maioria das edições do Textus Receptus. Apesar disso, é importante ressaltar que essas duas variantes pouco afetam o sentido da passagem, sendo que as distinções são até mesmo diluídas na tradução para o português. Ainda que o leitor, em santo temor, deva analisar e debaixo de oração ver qual leitura reflete o texto original, é importantíssimo estudar o significado dessas duas palavras paulinas riquíssimas e que reflete a beleza da igreja de Cristo, a  casa de Deus.

Soli Deo Gloria

Notas:

  1. A Peshitta é uma versão siríaca que remonta ao 2º século e que se assemelha ao texto-tipo bizantino. Muitos críticos modernos, a partir do trabalho de F. C. Burkitt(incluindo Westcott e Hort) datam a Peshitta como  pertencente ao 4º século a partir de uma recensão feita por Rábula, bispo de Edessa. Todavia, não há uma firme evidência histórica para essa datação

  2. LIÃO, Irineu de. Contra as Heresias. Tr. Lourenço Costa.  São Paulo: Paulus, 1995.p.29
  3. HAWTHORNE, Gerald F.MARTIN, Ralph P. REID, Daniel G.(ORG). Dicionário de Paulo e suas cartas.2º Ed.Tr. Bárbara  Theoto Lambert. São Paulo; Vida Nova, Loyola, Paulus ,2008.p.205

A História da língua Grega e o Novo Testamento

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Paulo prega no Areópago de Atenas. Autor: Raphael (1515).

Conhecer a língua falada nos tempos de Jesus é fundamental para o estudante das Escrituras, em especial pregadores, professores, teólogos e crentes em geral. O grego do Novo Testamento possui palavras cheias de significado, que em várias ocasiões acabam por se perder ou não serem tão claramente expressas nas traduções (por mais competentes que estas sejam).

—Quando lemos e entendemos o grego do Novo Testamento, compreendemos melhor alguns importantes aspectos da teologia cristã e da doutrina evangélica, além de compreendermos melhor as ricas verdades da Palavra de Deus. Vejamos um pouco do desenvolvimento da língua grega, da sua origem até o tempo do Novo Testamento e nos dias atuais.

—O grego é uma língua indo-européia, do mesmo tronco linguístico do sânscrito, germânico, eslavo. Restringia-se aos habitantes  do mar egeu, chamados de “helenos” (Gregos) por morarem em Helas (Grécia). Haviam vários dialetos helênicos, dependendo da localidade: os principais eram: Ático (falado por Sócrates, Platão e Aristóteles), Jônico (falado por Homero), Dórico e Eólico. Desses dialetos, o principal era o Ático, falado em Atenas e que se tornou o dialeto de Alexandre o Grande, discípulo de Aristóteles.

—O dialeto Koiné se tornou o grego padrão da antiguidade e língua franca do mundo Antigo através das conquistas de Alexandre o Grande, que espalhou a língua e a cultura grega em todas as regiões que conquistou, formando assim o Império Macedônio. O grego ático (com elementos jônicos) de Alexandre foi misturado com algumas características estrangeiras, formando então o grego Koinéh (que significa “comum”).

O grego koiné permaneceu mesmo após a queda do Império Macedônio e continuou sendo a língua franca do Império Romano até meados do século II e início do Século III, quando foi suplantado pelo Latim.

—Foi no período Koiné da língua grega que foi produzida a tradução grega do Antigo Testamento em Hebraico, que segundo a tradição fora feita por 72 eruditos judeus, a Septuaginta (Versão dos Setenta).

—A Septuaginta, até hoje, é uma das traduções bíblicas mais  estudadas e lidas até hoje. E teve grande influência no grego judaico, sendo que Jesus, Paulo e outros autores do Novo Testamento citam a Septuaginta em determinadas ocasiões. —O grego do Novo Testamento não é simplesmente o grego comum utilizado no Império Romano, mas um grego mais “semítico” ou “hebraicizado”. Em outras palavras, há conceitos mais hebraicos no grego koiné do NT, por isso, muito preferem a expressão Grego Bíblico, pois é uma versão do koiné própria da mentalidade judaica, influenciada pela Septuaginta.

—O Grego falado durante a Idade Média pelos habitantes de Bizâncio (região oriental do Império Romano), é conhecido como grego bizantino, já o grego moderno começou a ser falado a partir da Idade Moderna (1500 d.c) até os nossos dias, dividindo-se nos dialetos Katharevousa (literário) e Demotikê (popular). O Katharevousa foi uma tentativa inciada a partir do século XIX de refinar o grego demotikê com elementos do koiné, especialmente no que dizia respeito às características literárias da língua. Foi no dialeto Katharevousa que o novo testamento foi traduzido para o povo, através do esforços do sacerdote ortodoxo-oriental Neóphitos Vamvas/Bambas (Νεόφυτος Βάμβας).

O grego moderno se parece muito com o antigo, ainda que haja mudanças notáveis na acentuação e pronúncia de determinadas letras, além dos tempos verbais.

A história da língua grega é fascinante, mais fascinante ainda é aprende-la, porém cada esforço feito (e são muitos no decorrer do aprendizado) a recompensa e prazer são grandes. Cada pregador e exegeta precisa conhecer tal língua preciosa para os estudos do Novo Testamento.

Soli Deo Gloria

Para conhecer mais;

Aprendendo Grego – Joint association of Classial Teachers.(2º Ed. Odysseus Editora, 2014).

Grego do Novo Testamento para Iniciantes -Greshan Machen (Hagnos,2012).

A Autoridade do Texto Bíblico: Entrevista com Wilbur Pickering

O teólogo, missionário e crítico textual Wilbur Pickering foi entrevistado a três anos atrás por Fridolin Jazen acerca de questões textuais. O doutor Pickering é um dos maiores defensores do Novo Testamento da atualidade. Vale a pena conferir (obervações logo abaixo do vídeo).

 

Como se percebe, o dr. Wilbur Pickering é um homem apaixonado e compromissado com a Palavra de Deus, que demonstra todo o cuidado com o texto bíblico. Porém, como um defensor do Texto Majoritário, há algumas considerações a serem feitas.

Infelizmente Pickering repete alguns erros históricos acerca da Cláusula joanina, também conhecido como o Comma Johanneum (1 Jo 5.7). a história que o Comma derivou-se da Vulgata e depois foi enxertada em alguns manuscritos gregos não é tão simples quanto parece, e a história que Erasmo de Roterdã a publicou devido a um manuscrito fabricado há muito foi provada como lendária pelo erudito especialista em escritos Erasmianos Erik De Jonge, em seu artigo publicado em 1980,  Erasmus and the Comma Johanneum (disponível aqui).

A explicação de Pickering para o texto de Atos 8.37 ainda é mais problemático, pois anda que esta passagem seja minoritária em grego, há excelentes testemunhas que comprovam sua autenticidade (sem contar os manuscritos latinos e citações dos pais da igreja). A ideia de que tal passagem foi autêntica, mas incluída aí por causa do relato oral (feito pelo próprio Filipe) segue uma linha totalmente naturalista-reconstrucionista, semelhante a aquela aplicada à Perícope da mulher adúltera (Jo 7.53-8.11), passagem que Pickering defende com vigor (e muito bem, por sinal).

Outro fato digno de atenção é a tentativa reconstrucionista de Pickering, que de maneira ousada (ou seria um tanto quanto prepotente?) de Pickering de identificar a pureza do Novo testamento através da família f35 de manuscritos gregos como um autêntico texto original em 100% das instâncias. Tal estimativa foge um tanto da realidade dos estudo textuais (ainda que a f35 seja certamente oriunda de uma tradição textual que apreciava profundamente os livros do Novo testamento como Palavra de Deus).

A despeito disso, a entrevista com Pickering é uma excelente introdução ao trabalho de, na minha opinião, um dos melhores estudiosos do Novo Testamento. Altamente recomendado.

Soli Deo Gloria