As Mudanças na Almeida Corrigida Fiel (1994-2011).

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Almeida Corrigida Fiel – 2011

Como visto no artigo anterior, a versão Almeida Corrigida Fiel (ACF) procura se ater fielmente aos textos originais utilizados por João Ferreira de Almeida, tanto no aspecto linguístico utilizado por ele (fraseologia, sintaxe) quanto pelas variantes do Textus Receptus que ele consultou, tudo isso aliado a uma atualização do vocabulário (retirada de arcaísmos)e melhoria na tradução de alguns versos e dos tempos verbais no Antigo Testamento -sendo este último o que mais sofreu mudanças na tradução. Porém, houve uma constante revisão, em especial do Novo Testamento,  durante os anos de 1994 até a última revisão, em 2011. A maioria das mudanças veio para melhor, o que não significa que não haja falhas e até mesmo um pequeno retrocesso na versão. Tais mudanças serão destacadas a seguir:

 

Mudanças gerais de tradução:

Dentre as mudanças positivas encontram-se a busca por uma maior precisão em tradução de alguns termos hebraico e gregos. Nota-se um leve distanciamento na fraseologia e expressões do Antigo Testamento quando a ACF-2011 é comparada com as edições de 1994,1995,2007 e a ARC-95, o que sugere uma profunda revisão do texto hebraico em especial (notável no livro de salmos e Provérbios). O Novo Testamento possuiu também algumas mudanças mais sutis e perceptíveis quando comparada com as edições de 1994-2007 (Cf. 1 Co 9.5; 1 Jo 3.6 ; Fp 3.2). O fruto do trabalho foi de excelência e deve ser elogiado, ainda que  vezes a linguagem perca a referência histórica da versão de Almeida com outras traduções da Reforma, como a King James e a Reina-Valera.

Além dessas alterações mais positivas, houveram também algumas mudanças que não foram adequadas a partir da edição de 2007.

Mudanças Manuscritológicas.

As mudanças negativas se referem mais propriamente as revisões que envolvem questões textuais de manuscritologia bíblica. A partir da edição de 2007, buscou-se por parte dos editores aproximarem a ACF da tradução original de Almeida, que fora publicada em 1681. Com isso, algumas revisões feitas na tradução de Almeida ao longo dos anos, inclusive a revisão feita pela Trinitarian Bible Society no século 19, foram descartadas em favor das leituras originais da versão de 1681. O resultado de tal empreitada, pode-se dizer, não alcança os objetivos pretendidos de forma satisfatória. O problema mais sério pode ser encontrado a seguir:

a) O uso de emendas Conjecturais de Theodoro Beza.

Em geral é reconhecido que Almeida utilizou essencialmente as edições de Theodoro Beza¹ para realizar a tradução, e ainda que o texto de Beza tenha sido uma das melhores e edições do Texto Receptus e uma das mais utilizadas (seu texto foi um dos mais utilizados pelos tradutores da King James Version), há um problema inerente ao texto de Beza em particular, o uso de emendas conjecturais na edição do texto grego.

Na disciplina da crítica textuais, o termo “emenda conjectural” é um artificio utilizado pelo editor textual em reconstruir, a partir de uma conjectura, a leitura supostamente original que não se encontra mais disponível em nenhum manuscrito, ainda que com isso, a leitura existente nos manuscritos seja alterada e até mesmo reescrita.  Beza foi um dos pós-reformadores que mais utilizou tal artifício.

O resultado foi que duas emendas conjecturais de Beza foram inseridas na King James Version e uma pode ser encontrada na tradução original de Almeida, que é a leitura de Apocalipse 16.5. A leitura desse versículo, como atestada por praticamente todos os manuscritos existentes, quer gregos, latinos e de outras versões e traduções é a que segue:

“Justo és tu, ó Senhor, que és, que eras, e santo és, porque julgaste estas coisas” (Ap 16.5b – ARC)

Beza sentiu-se incomodado com tal leitura, fazendo a mudanças de “santo és” (ο οσιος – “O Santo” – ARA) para “o que virá” (ο ερχομενος), assim a leitura ficou assim:

“Justo és tu, ó Senhor, que és, que eras, e que hás de vir, porque julgaste estas coisas” (Ap 16.5b – ACF 2007)

Beza justificou-se de tal mudança nas notas latinas da edição de seu texto:

A publicação usual é “και ο οσιος”, que mostra uma divisão, ao contrário de toda a frase que é tola, distorcendo o que é apresentado nas escrituras. A Vulgata, no entanto, se é articuladamente correta ou não, não é adequada ao fazer a mudança para “οσιος, Sanctus”, uma vez que uma seção (do texto) desgastou a parte após “και”, o que seria absolutamente necessário na conexão com “δικαιος” e “οσιος”. Mas aqui com João permanece uma completude onde o nome de Jeová (o Senhor) é usado, como dissemos antes, (Ap. 1: 4); Ele sempre usa os três em estreita colaboração, portanto, é certamente “και ο εσομενος”, por que ele o passaria neste lugar? E assim, sem duvidar da autêntica escrita neste manuscrito antigo, restabeleci fielmente no bom livro o que certamente estava lá: “ο εσομενος”. Então, por que, verdadeiramente com razão, escreva “ο ερχομενος” como está antes em outros quatro lugares, ou seja, 1: 4 e 8? De igual modo, em 4: 3 e 11:17. Porque o ponto é que o justo Cristo, deve vir de lá e trazê-los para serem: assim, de fato, ele parecerá sentar-se no juízo exercendo seus decretos justos e eternos.

Theodore Beza, Novum Sive Novum Foedus Iesu Christi, 1589

Tal leitura está presente na edição de almeida de 1681:

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Apocalipse 16.5 (Almeida 1681)

Tal leitura não está presente em nenhum manuscrito existente, nem em outras edições do Textus Receptus, nem tampouco nas traduções clássicas da Reforma, como as de Tyndale, de Lutero e Reina-Valera. Todas, seguem a leitura normativa. A Almeida Revista e Reformada procurou revisar o versículo, conformando-o mais ao  ao texto original:

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Ap 16.5 Almeida Revista e Reformada – 1847

 

As edições Almeida Fiel de 1994 e 1995 mantinham a leitura encontrada na ARC até a época de 2007. Um possível argumento que pode ser levantado em favo do retorno da emenda conjectural de Beza é devido a algo puramente histórico: é assim que se encontrava originalmente em Almeida, portanto a ACF deve ser “fiel” ao seu originador. Acerca disso duas objeções cabais são levantadas: a primeira é que o que mais importa em uma tradução bíblica é sua fidelidade para com o texto que Deus inspirou, não a uma edição particular. É importante lembrar que a King James  e outras traduções sofreu revisões nos anos posteriores à sua publicação, sendo que o mesmo aconteceu com Almeida através das edições Revista e reformada, da TBS inglesa e a Revista e Correcta posterior. haja vista que tal leitura tinha sido já corrigida, não havia necessidade de ressuscitá-la no texto.

Outro motivo ainda mais importante: há uma leitura encontrada no texto de 1 joão 2:23b, destaca em negrito a seguir, que não se encontra na maioria dos manuscritos gregos e em edições do Texto Receptus, sendo ausente em versões clássicas como a Tyndale inglesa:

“Qualquer que nega o Filho também não tem o pai; e aquele que confessa O Filho tem também o Pai” ( 1 Jo 2.23 – ARC 95)

A parte “b” do versículo também não se encontra nas edições majoritárias de Hodges-Farstad e Robinson-Pierpont e se encontra em itálicos na KJV. Além destes, a Almeida de 1681 igualmente não possuía a parte “b” do versículo:

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1 Jo 2.23b – Almeida 1681

 

Tal parte, entretanto, foi inserida na edição Reformada da TBS:

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1 Jo 2.23 – Almeida Revista e Reformada 1847

 

Todas as Revisões da Tradução de Almeida contém a parte “b” do versículo, inclusive todas as edições da Almeida Fiel. Se o foco das versões de 2007 e 2008 era trazer a Revisada Fiel para mais próximo da versão original de Almeida, porque mudar Apocalipse 16.5 e não 1 João 2.23b? Não haveria aqui um caso de incoerência editorial? cabe-se aqui a reflexão e necessidade de fidelidade às Escrituras³.

Conclusão

Diante disso é preferível manter as sensatas revisões feitas na Edição de Almeida no decorrer dos séculos, como as que encontramos em Ap 16.5 e 1 Jo 2.23b que não estão associadas ao Texto Crítico e trazem prejuízo algum mas sim aperfeiçoam a defesa do Textus Receptus ou ao primoroso trabalho de Almeida.

Soli Deo Gloria

Notas:

1. A edição de Beza era bilíngue, com o texto grego editado por ele em paralelo com sua tradução em Latim. Diante disso alguns especulam se Almeida não traduziu o texto a partir do grego, mas do latim. Tal especulação, ainda que possível, não corresponde diretamente aos fatos, pois há trechos no texto latino de Beza que não se encontram em Almeida, como por exemplo uma palavra de Hebreus 6.6 lida como “Se caírem” ( uma emenda conjectural também encontrada na King James Version), enquanto que Almeida segue corretamente o texto grego, excluído o condicional “se”, assim se segue a leitura correta: “E recaírem”.

2. A versão Revista e Reformada, que contava com a expressão “Fiel aos Originais”, foi a primeira Bíblia de língua estrangeira a ser produzida pela Trinitarian Bible Society de Londres. O trabalho de revisão ficou a cargo de uma equipe liderada pelo professor John boys, do Trinity College.

3. A questão textual que envolve 1 João 2.23 será, pela graça de Deus, discutida com mais detalhes em artigo posterior.

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Textus Receptus: Estabelecendo definições e particularidades

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Textus Receptus: Edição de Scrivener (Trinitarian Bible Sociey).
Quando se lida com manuscritologia bíblica do Novo Testamento, os ânimos ficam acirrados dos dois lados do debate, os que defendem o Texto crítico e os que defendem o texto bizantino, em especial, os que defendem o Textus Receptus como texto autorizado dos manuscritos bizantinos e as traduções baseadas no Textus Receptus (TR). No Brasil, muitos dos que defendem o TR fazem-se utilizando o combustível de sites batistas fundamentalistas, que a despeito de sua contribuição em muitos aspectos, acaba por obscurecer algumas questões acerca do Texto Recebido e dando combustível argumentativo aos que defendem o Texto Crítico.
É necessário que se tenha uma bordagem bíblica, sensata, protestante e coerente com a fé cristã ortodoxa e confessional ao analisar o TR. Eis alguns princípios importantes para o crente defensor do Texto Tradicional:
Primeiramente é importante que se tenha como certo o axioma que Deus é fiel e preservar plenamente sua Palavra Escrita. A Bíblia não foi perdida e depois encontrada novamente, mas sempre esteve à disposição da igreja (ainda que esta possa ter lhe desprezado em alguns momentos). Dito isto, é importante que se tenha ciência e se saiba fazer a distinção entre  Texto Preservado e as Edições do Texto Preservado. O texto original foi preservado na imensa massa de manuscritos chamados de “bizantinos”, ainda que sejam oriundos das mais variadas regiões do oriente. Esses manuscritos, compilados, compilados e comparados debaixo da “lógica da fé”, foram reproduzidos em um texto impresso bem perto da época da Reforma, e rendendo várias edições com o passar do tempo, todas essencialmente concordantes entre si, que posteriormente foi chamado de “Textus Receptus”.
Não se deve ver o Textus Receptus como uma única edição, mas um grupo de textos que concordam substancialmente entre si
Ainda que o texto original tenha sido preservado, não significa que ele esteja representado com precisão absoluta em toda a edição impressa. Caso houvesse concordância plena, não seria mais unicamente a providência de Deus agindo, mas um verdadeiro milagre equivalente à inspiração dos originais. Por isso, há algumas pequeníssimas variantes entre as edições do Texto Recebido, porém na maioria dos são diferenças de acentuações, grafia ou palavras invertidas (que não alteram o sentido ou a tradução do texto, pois no grego não importam a ordem das palavras, mas as conjugações delas. Há entretanto, pequeníssimas variantes, mas que são ínfimas se comparadas às edições do Texto Crítico. Essas variantes se dão por haver uma leve divergência nos manuscritos bizantinos, e às vezes  uma edição do TR segue uma variante e outra edição segue outra variante.  Por exemplo, em  João 1.28, a edição de Stephanus se lê “Betânia” e a de Beza se lê “Bethabara”. Aqui os manuscritos estão divididos. Um estudo minucioso indica “Bethabara” como a leitura correta, mas é algo que ainda está sendo estudado.  Há pequenas variantes (realmente importantes) nas edições, mas elas são mínimas e não afetam, o sentido e nem enfraquecem a doutrina (como acabam  fazendo os textos críticos, que não passam de uma reconstrução artificial).
Não se deve ver o Textus Receptus como uma única edição, mas um grupo de textos que concordam substancialmente entre si (cerca de 98,5%), formando um  texto que reflete os originais (sendo, portanto, uma edição legítima das cópias fiéis, as apógrafas). Estas edições contêm pequenas variantes entre si, que devem ser estudadas no temor do Senhor e, a meu ver, deveriam ser anexadas a notas de rodapé das edições do TR publicadas atualmente. Um detalhe importante é que essas variantes, pela providência de Deus, estão circunscritas às edições do TR antigas e devem ser avaliadas de maneira bíblica e temente à Deus.
Aos defensores do texto tradicional, é importante manter a confiança que o TR é um texto bastante confiável, legítimo representante do Texto Original e que você pode ler sem medo. Todavia, é importante defendê-lo de maneira sábia, definindo-o dentro do bom-senso santificado e de uma boa teologia protestante-reformada. Procure estudar em oração uma leitura variante que o irmão possa encontrar e não fique receoso. Pois como disse acertadamente Edward F. Hills (cujo livro eu recomendo de todo o coração aoleitor) Temos toda a certeza que precisamos. Uma certeza máxima!
Soli Deo Gloria

A História e as edições da Almeida Corrigida Fiel (1994-2011).

A versão Almeida Corrida fiel (ACF), também conhecida como Almeida Revisada Fiel (ARF),biblia-sagrada-almeida-corrigida-fiel-acf-4786-mlb4933928907_082013-o publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana, é uma das versões mais apreciadas na língua portuguesa e, juntamente com a Almeida Revista e Corrigida (ARC), publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), é uma das versão mais vendidas no Brasil, dominando cerca de 60% de vendas do mercado editorial de Bíblias no Brasil.

As marcas distintivas da Almeida fiel são a procura por se manter fiel à tradição textual da Bíblia original de João ferreira de Almeida, publicada em Amsterdã e baseada no Textus Receptus de Theodore Beza,e o método de tradução empregado por Almeida e todos os tradutores da Reforma: O método de equivalência formal, que procura reproduzir a estrutura estilística e fraseologias dos originais hebraico, aramaico e grego. Assim como a tradução original de Almeida, a Almeida Fiel possui uma interessante história, sendo que alguns pontos dela serão vistos a seguir.

O prelúdio – a Bíblia Revista e Reformada:

A história da Almeida Fiel começa em Londres no século XIX, quando a recém-fundada Trinitarian Bible Society, localizada em Londres, decidiu publicar uma nova versão da Bíblia em português, sendo que esta seria a primeira publicação da Bíblia em língua estrangeira feita por esta sociedade. O trabalho foi conduzido pelo Reverendo John Bois, do Trinity College, e que resultou na versão Almeida Revista e Reformada. Essa versão procurou atualizar a tipografia, atualização do vocabulário e fazer certas revisões no texto de Almeida. Enquanto isso, outras sociedades Bíblicas e editoras continuaram a publicar sua versão particular de Almeida. Por fim, foi produzida em Portugal a  versão de Almeida conhecida como Revista e Corrigida, que se baseava nas verões anteriores de Almeida (Incluindo a Reformada). Essa versão, baseada totalmente no Textus Receptus, se tornou a versão padrão em língua portuguesa no século XIX e início do XX, fazendo com que a Trinitarian Bible Society não visse mais necessidade de publicação da versão Revista e Reformada. Porém tal cenário logo mudaria no decorrer do século XX.

O Período intermediário: ARC SBB/IBB.

Com a publicação do Texto grego dos eruditos Westcott e Hort em 1881, texto esse que diferia do Textus Receptus em vários  lugares, começou-se a ter uma desconfiança com  a essencialidade das traduções clássicas, como a King James (inglês), a Reina-Valera (espanhol) e obviamente, a Almeida(português). As duas soluções propostas pelas sociedade bíblicas então foram publicar novas traduções da Bíblia, baseadas no Texto crítico de Westcott e Hort se seus sucessores, ou então revisar e atualizar as versões antigas para se ajustarem a este novo tipo de texto grego (haja vista que novas versões tendiam a ser rejeitadas pela igreja, que preferiam a  versões tradicionais). Com isso, a versão Corrigida de Almeida foi progressivamente adotando algumas variantes do Texto Crítico em pequenos lugares. Com o passar do tempo o número de variantes foi chegando a cerca de 2% da Corrigida até a versão de corrigida de 1995.

Das versões da Almeida Corrigida se destacam as publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e pela Impressa Bíblica Brasileira (IBB). A SBB publicou  Ambas as versões possuem  quase as mesmas leituras variantes, com exceção de alguns lugares onde a Corrigida da IBB permaneceu com a leitura original em algumas passagens e manteve o vocabulário arcaico da ARC de 1969.  A ACF reteve um pouco da linguagem da Corrigida-IBB, como se pode notar em algumas passagens como Tiago 3.13:

“Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre, pelo seu bom trato, as suas obras em mansidão de sabedoria” (ARC 1995).

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” (RC IBB)

“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre  pelo seu bom trato as suas obras em mansidão de sabedoria” (ACF).

Algumas passagens da Corrigida da IBB permaneceram nas versões de 1994,1995 e 2007, sendo substituídas na revisão de 2011. Basicamente, essas três versões são quase idênticas entre si, apresentando apenas algumas leves variações

Almeida Fiel: 1994-2011.

A partir do momento que a Sociedade Bíblica Trinitariana se estabeleceu com uma sede no Brasil, procurou-se trabalhar em uma versão que fosse fiel ao trabalho original de Almeida, no caso, a versão deveria respeitar os textos originais utilizados por Almeida: O Texto Massorético de Jakob Ben Chayim e o Textus Receptus, em especial a edição de Theodore Beza. A primeira edição de 1994 manteve ainda algumas variantes que não foram utilizadas por Almeida, assim como a revisão publicada em 1995. A atualização de 2007 procurou resolver esta questão, restaurando todas as leitura variantes da edição original de 1681(Se isso foi totalmente positivo é algo a se tratado no próximo artigo). A revisão de 2001 procurou melhorar a tradução de algumas passagens.

Conclusão:

A Almeida corrigida Fiel merece ser reconhecida como uma legítima (e por padrão, a melhor) representante da tradução original de Almeida. Ainda que algumas passagens acabem por perder certa estilização poética nas versões mais arcaicas como a ARC e a IBB e não ser uma tradução sem erros ou equívocos (algo que só existe idealmente), é um a tradução que honra o trabalho pioneiro de Almeida, e cria, inclusive, um duplo sentido proposital em sua slogan: é uma tradução fiel não somente ao trabalho de J. F. de Almeida, mas também aos próprios originais do Antigo e Novo Testamento, representado nas edições de Ben Chayim e do Textus Receptus.

Soli Deo Gloria

Texto em Foco: 1 Timóteo 1.4

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Nessa análise textual, atentaremos para a passagem de 1 Timóteo 1.4, onde encontramos uma variante textual nos manuscritos gregos, que igualmente se reflete nas traduções bíblicas em português. Vejamos alguns exemplos:

“Nem se dêem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé, assim o faço agora” (ARC-1995).

“Nem se ocupem com fábulas ou genealogias intermináveis, pois produzem discussão em vez de favorecer o propósito de Deus, que tem como fundamento a fé” (Almeida 21).

“E que deixem de dar atenção a mitos e genealogias intermináveis, que causam controvérsias em vez de promoverem a obra de Deus, que é pela fé” (NVI)

Ainda que as traduções modernas traduzam em geral apresentem “edificação” ou “obra”, a palavra traduzida do Texto Crítico  é οἰκονομία (dispensação, administração, sendo a Almeida século 21 aqui uma das poucas a deixar clara sua preferência textual), enquanto que as edições clássicas de Almeida(Corrigida, Corrigida Fiel), é οἰκοδομίαν (edificação, obra). As duas palavras diferem unicamente por uma letra no grego (o “nü” em oikonomia e o “delta” em oikodomia), claramente indicando que houve um erro não intencional por parte de um escriba(ou vários) durante a transmissão do texto. E a questão seria, qual das duas palavras é a leitura original do texto?

A grande maioria dos manuscritos gregos traz οἰκονομία, ou “dispensação”, lê-se então: “dispensação[administração] de Deus”. Essa é a leitura adotada no Textus Receptus de Stephanus, no Texto Majoritário de Hodges-Farstad e no de Robinson-Pierpont, no Texto Patriarcal e nas Edições críticas das Sociedades Bíblicas Unidas(SBU) e da Sociedade Bíblica Germânica – German Bible Society(GBS).

Em contrapartida, οἰκοδομίαν está presente na maioria das edições do Textus Receptus como as de Erasmo, de Beza e dos Elzervir.  Essa variante  está presente na Vulgata Latina, na Peshitta¹ e também no Pai da Igreja Irineu de Lião, no 2º século. Em sua obra clássica Contra as Heresias. Nessa obra fantástica, Irineu começa logo inicialmente citando 1 Timóteo 1.4:

Alguns, ao rejeitar a verdade, apresentam discursos mentirosos e genealogias sem fim, as quais favorecem mais as discussões do que a construção do edifício de Deus que se realiza na fé – no dizer do apóstolo – e, por astuta aparência de verdade, seduzem a mente dos inexpertos e escravizam-nos , falsificando as palavras do Senhor, tornando-se maus intérpretes do que foi corretamente exposto².

A obra de Irineu, originalmente escrita em grego, foi preservada completamente em Latim, porém os primeiros capítulos existem em fragmentos gregos, assim como os últimos foram preservados em outras traduções, indicando assim que a leitura do manuscrito grego de Irineu é “oikodomia”, concordando assim, com uma minoria de manuscritos gregos e com a Vulgata Latina e Peshitta, enquanto que a imensa maioria de manuscritos possuem “oikonomia”.   No estudo para determinar qual a palavra original, por vezes o estudo dos manuscritos é suficiente para favorecer a leitura majoritária. Já que a leitura é encontrada nos manuscritos mais antigos como Álef e B, a maioria dos críticos textuais preferem “oikonomia”. Porém uma consideração interna da passagem, bem como sua teologia são importantes para consideração, vejamos “oikonomia” e “oikodomia” nos escritos do apóstolo Paulo.

-Edificação e Dispensação nos escritos Paulinos: 

Tanto “Oikodomia” e “Oikonomia” fazem parte da teologia paulina, e ambas igualmente possuem são derivada das mesma palavra grega: Oikos(casa), palavra importante usada pelo apóstolo para descrever a igreja – tanto sua natureza quanto sua função. Em 1 Tm 3,15 a ideia de “casa de Deus” (gr. oikos tou theou)  se refere não simplesmente a uma ideia estrutural de igreja – no caso, um templo – Mas sim uma unidade social e espiritual – ou seja, “casa de Deus”, aqui, possui a mesma ideia de “casa de Davi”: a Igreja é a família( oikos) de Deus em Cristo Jesus. No que tange a oikonomia(dispensação) o conceito paulino reflete tanto a organização do plano de Deus refletido no mistério agora revelado em Cristo (Cl 1.25-27), quanto também o administrador desse mistério, no caso em questão, o ministro de Cristo (gr. oikonomos, 1Co 4.1-2)³, daí origina-se a também a ideia vétero-testamentária do Templo Deus, onde o Espírito Santo habita( 1 Co 6.19), sendo a tarefa do ministro e dos membros do corpo de Cristo fazerem tudo para a edificação (1 co 14.26;Ef 4.12).

De maneira interessante, o apóstolo Paulo,quando utiliza a expressão “edificação” utiliza-se de uma flexão apenas da palavra grega, οικοδομην (1 Co 14.3,4,5/26; Ef 4.12), caso οἰκοδομίαν seja a leitura correta em 1 Tm 1.4, seria a primeira vez que o apóstolo utilizaria a palavra flexionada de maneira levemente diferente, o que pode favorecer oikonomia com a leitura correta do texto. Todavia, tal diferença pode ser explicada pela linguagem distinta que Paulo usa nas pastorais, que foram escritas um certo tempo depois das epístolas aos Romanos e aos Coríntios.

Ao analisarmos o texto, percebe-se que a expressão “edificação de Deus” parece se adequar mais ao contexto do assunto que Paulo trata, ao invés de “dispensação”. Quando o apóstolo busca evitar confrontos desnecessários na igreja de Deus, ele sempre visa que as coisas sejam feitas para a edificação (como visto em 1 Co 8.1;14.3-5;26). Já quando trata acerca da “dispensação”, o apóstolo quase sempre relaciona tal palavra à administração de Deus para as nações no contexto da pregação do evangelho (Cf. Cl 1.25-27; 1  Co 9.17, Ef 1.10), ainda que oikonomia, esteja associada fortemente associada com oikodomia, tanto em raiz quanto no uso feito pelo apóstolo Paulo.

Conclusão

Ambas as leituras possuem boas evidências em seu favor. A variante “dispensação” recebe forte apoio, haja vista ser praticamente a leitura encontrada nos manuscritos gregos, inclusive os mais antigos, tendo sido a leitura adotada por Stephanus, Hodges & Farstad, Robinson & Pierpont e os editores da SBU e GBS. Todavia, a variante “edificação” também possui um bom apoio antigo (Irineu, no 2º século), é também uma linguagem paulina e parece se encaixar melhor no contexto da passagem, sendo então adotada pela maioria das edições do Textus Receptus. Apesar disso, é importante ressaltar que essas duas variantes pouco afetam o sentido da passagem, sendo que as distinções são até mesmo diluídas na tradução para o português. Ainda que o leitor, em santo temor, deva analisar e debaixo de oração ver qual leitura reflete o texto original, é importantíssimo estudar o significado dessas duas palavras paulinas riquíssimas e que reflete a beleza da igreja de Cristo, a  casa de Deus.

Soli Deo Gloria

Notas:

  1. A Peshitta é uma versão siríaca que remonta ao 2º século e que se assemelha ao texto-tipo bizantino. Muitos críticos modernos, a partir do trabalho de F. C. Burkitt(incluindo Westcott e Hort) datam a Peshitta como  pertencente ao 4º século a partir de uma recensão feita por Rábula, bispo de Edessa. Todavia, não há uma firme evidência histórica para essa datação

  2. LIÃO, Irineu de. Contra as Heresias. Tr. Lourenço Costa.  São Paulo: Paulus, 1995.p.29
  3. HAWTHORNE, Gerald F.MARTIN, Ralph P. REID, Daniel G.(ORG). Dicionário de Paulo e suas cartas.2º Ed.Tr. Bárbara  Theoto Lambert. São Paulo; Vida Nova, Loyola, Paulus ,2008.p.205

A História da língua Grega e o Novo Testamento

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Paulo prega no Areópago de Atenas. Autor: Raphael (1515).

Conhecer a língua falada nos tempos de Jesus é fundamental para o estudante das Escrituras, em especial pregadores, professores, teólogos e crentes em geral. O grego do Novo Testamento possui palavras cheias de significado, que em várias ocasiões acabam por se perder ou não serem tão claramente expressas nas traduções (por mais competentes que estas sejam).

—Quando lemos e entendemos o grego do Novo Testamento, compreendemos melhor alguns importantes aspectos da teologia cristã e da doutrina evangélica, além de compreendermos melhor as ricas verdades da Palavra de Deus. Vejamos um pouco do desenvolvimento da língua grega, da sua origem até o tempo do Novo Testamento e dos dias atuais.

—O grego é uma língua indo-européia, do mesmo tronco linguístico do sânscrito, germânico, eslavo. Restringia-se aos habitantes  do mar egeu, chamados de “helenos” (Gregos) por morarem em Helas (Grécia). Haviam vários dialetos helênicos, dependendo da localidade: os principais eram: Ático (falado por Sócrates, Platão e Aristóteles), Jônico (falado por Homero), Dórico e Eólico. Desses dialetos, o principal era o Ático, falado em Atenas e que se tornou o dialeto de Alexandre o Grande, discípulo de Aristóteles.

—O dialeto Koiné se tornou o grego padrão da antiguidade e língua franca do mundo Antigo através das conquistas de Alexandre o Grande, que espalhou a língua e a cultura grega em todas as regiões que conquistou, formando assim o Império Macedônio. O grego ático (com elementos jônicos) de Alexandre foi misturado com algumas características estrangeiras, formando então o grego Koinéh (que significa “comum”).

O grego koiné permaneceu mesmo após a queda do Império Macedônio e continuou sendo a língua franca do Império Romano até meados do século II e início do Século III, quando foi suplantado pelo Latim.

—Foi no período Koiné da língua grega que foi produzida a tradução grega do Antigo Testamento em Hebraico, que segundo a tradição fora feita por 72 eruditos judeus, a Septuaginta (Versão dos Setenta).

—A Septuaginta, até hoje, é uma das traduções bíblicas mais  estudadas e lidas até hoje. E teve grande influência no grego judaico, sendo que Jesus, Paulo e outros autores do Novo Testamento citam a Septuaginta em determinadas ocasiões. —O grego do Novo Testamento não é simplesmente o grego comum utilizado no Império Romano, mas um grego mais “semítico” ou “hebraicizado”. Em outras palavras, há conceitos mais hebraicos no grego koiné do NT, por isso, muito preferem a expressão Grego Bíblico, pois é uma versão do koiné própria da mentalidade judaica, influenciada pela Septuaginta.

—O Grego falado durante a Idade Média pelos habitantes de Bizâncio (região oriental do Império Romano), é conhecido como grego bizantino, já o grego moderno começou a ser falado a partir da Idade Moderna (1500 d.c) até os nossos dias, dividindo-se nos dialetos Katharevousa (literário) e Demotikê (popular). O Katharevousa foi uma tentativa inciada a partir do século XIX de refinar o grego demotikê com elementos do koiné, especialmente no que dizia respeito às características literárias da língua. Foi no dialeto Katharevousa que o novo testamento foi traduzido para o povo, através do esforços do sacerdote ortodoxo-oriental Neóphitos Vamvas/Bambas (Νεόφυτος Βάμβας).

O grego moderno se parece muito com o antigo, ainda que haja mudanças notáveis na acentuação e pronúncia de determinadas letras, além dos tempos verbais.

A história da língua grega é fascinante, mais fascinante ainda é aprende-la, porém cada esforço feito (e são muitos no decorrer do aprendizado) a recompensa e prazer são grandes. Cada pregador e exegeta precisa conhecer tal língua preciosa para os estudos do Novo Testamento.

Soli Deo Gloria

Para conhecer mais;

Aprendendo Grego – Joint association of Classial Teachers.(2º Ed. Odysseus Editora, 2014).

Grego do Novo Testamento para Iniciantes -Greshan Machen (Hagnos,2012).

A Autoridade do Texto Bíblico: Entrevista com Wilbur Pickering

O teólogo, missionário e crítico textual Wilbur Pickering foi entrevistado a três anos atrás por Fridolin Jazen acerca de questões textuais. O doutor Pickering é um dos maiores defensores do Novo Testamento da atualidade. Vale a pena conferir (obervações logo abaixo do vídeo).

 

Como se percebe, o dr. Wilbur Pickering é um homem apaixonado e compromissado com a Palavra de Deus, que demonstra todo o cuidado com o texto bíblico. Porém, como um defensor do Texto Majoritário, há algumas considerações a serem feitas.

Infelizmente Pickering repete alguns erros históricos acerca da Cláusula joanina, também conhecido como o Comma Johanneum (1 Jo 5.7). a história que o Comma derivou-se da Vulgata e depois foi enxertada em alguns manuscritos gregos não é tão simples quanto parece, e a história que Erasmo de Roterdã a publicou devido a um manuscrito fabricado há muito foi provada como lendária pelo erudito especialista em escritos Erasmianos Erik De Jonge, em seu artigo publicado em 1980,  Erasmus and the Comma Johanneum (disponível aqui).

A explicação de Pickering para o texto de Atos 8.37 ainda é mais problemático, pois anda que esta passagem seja minoritária em grego, há excelentes testemunhas que comprovam sua autenticidade (sem contar os manuscritos latinos e citações dos pais da igreja). A ideia de que tal passagem foi autêntica, mas incluída aí por causa do relato oral (feito pelo próprio Filipe) segue uma linha totalmente naturalista-reconstrucionista, semelhante a aquela aplicada à Perícope da mulher adúltera (Jo 7.53-8.11), passagem que Pickering defende com vigor (e muito bem, por sinal).

Outro fato digno de atenção é a tentativa reconstrucionista de Pickering, que de maneira ousada (ou seria um tanto quanto prepotente?) de Pickering de identificar a pureza do Novo testamento através da família f35 de manuscritos gregos como um autêntico texto original em 100% das instâncias. Tal estimativa foge um tanto da realidade dos estudo textuais (ainda que a f35 seja certamente oriunda de uma tradição textual que apreciava profundamente os livros do Novo testamento como Palavra de Deus).

A despeito disso, a entrevista com Pickering é uma excelente introdução ao trabalho de, na minha opinião, um dos melhores estudiosos do Novo Testamento. Altamente recomendado.

Soli Deo Gloria

Resenha: Manuscritologia do Novo Testamento – Paulo Anglada

 

 No ano de 2014  o mercado editorial brasileiro recebeu uma obra que trata de um assunto 51461msmealbem pouco explorado no Brasil: O estudo da manuscritologia, ou crítica textual bíblica; em especial no que tange ao exame do Novo testamento. Em Manuscritologia do Novo Testamento: Historia, Correntes Textuais e o Final do evangelho de Marcos, o pastor presbiteriano Paulo Anglada, explora questões difíceis e técnicas em um linguajar simples e direto, sem perder a erudição e muito menos a ortodoxia protestante de linha Reformada, com isso o leitor é desafiado a lidar com a intricada história dos manuscritos que compõem o Novo Testamento.

            O livro do Reverendo Anglada evita o tecnicismo constante nessa área, o que em geral desestimula os leitores em geral e até mesmo seminaristas. Após breve introdução, o primeiro capítulo lida com a História do Texto, lidando com as mais importantes descobertas de manuscritos dos quatro primeiros séculos, como também com o surgimento do primeiro texto impresso, feito pelo humanista Erasmo de Roterdam e publicado em 1516 e a sua “rival”, a Poliglota Complutesiana, além das edições subsequente feitas por vários homens como Robert Stephanus, Theodore Beza, os irmãos Elzevir, o que veio a ser chamado de Textus Receptus. Após esse período, surgiram outros textos, que cada vez mais se afastaram do Textus Receptus até a publicação do Texto de Westcott e Hort, que se baseou em dois manuscritos provenientes de uma região: O Egito. Tais manuscritos em muito se diferiam dos manuscritos usados por Erasmo, que em geral representavam a maioria dos manuscritos gregos do Novo testamento, que formavam o tipo de Texto Bizantino/Siríaco. Com isso, surgiram as mais variadas traduções, todas adotando o texto de Westcott e Hort como base (que depois foi aperfeiçoado através dos trabalhos de críticos textuais como Kurt Aland e Bruce Metzger). Por fim, o primeiro capítulo fecha com as reações modernas do defensores d Textus Recptus:  existem duas alas, a erudita e a popular. Da primeira há nomes como Edward Hills e Theodore P. Letis, e da segunda, mais fundamentalista e radical, nomes como D. A. Waite e Peter Ruchnan. Outra reação aos textos críticos de Westcott/Hort (atualmente representado pelas modificações de Ebheard Nestle e Kurt Aland) foi o surgimento da teoria do Texto Majoritário moderno, com proponentes como Zane Hodges, Wilbur Pickering e Jakob Van Bruggen.

            Nos demais capítulos há uma breve análise de cada corrente textual existente. Cada capítulo lida com as teorias textuais a partir de análise das obras de seus representantes mais respeitados: os defensores do Textus Receptus (capítulo 2), os defensores do texto Eclético/crítico (capítulo 3) e os defensores do Texto Majoritário, o qual o próprio Anglada é um defensor (capítulo 4). Por fim, há um estudo detalhado sobre o final do evangelho de Marcos, rejeitado pelos críticos Textuais modernos como inautêntico (capítulo 5).

            A tese de Anglada é clara: “Deus não confiou o texto das Escrituras aos caprichos da história. Ele determina cada acontecimento da história com vistas a consecução de seus propósitos eternos – inclusive, e especialmente, aqueles que dizem respeito à preservação da sua Palavra” (p. 14). Anglada encontra dificuldade com as teorias de Westcott e Hort, mostrando que o pressuposto desses eruditos vai contra as evidências de transmissão textual. Sendo que um dos grandes problemas é que tais críticos vêm a Bíblia como um livro comum, e sua transmissão como normal, assim como elaboraram teorias naturalistas acerca do texto a partir de dois manuscritos extremamente conflitantes entre si (só nos Evangelhos são mais de 3.000 vezes). A crítica de Anglada, detalha no capítulo 3, é forte e certeira contra a corrente textual que domina os Textos gregos do Novo Testamento e as traduções modernas. O capítulo 4 se distingue de certa forma dos demais, pois ao analisar a corrente textual que defende o chamado Texto Majoritário, nota-se a identificação textual do autor, que nos dá uma excelente definição acerca da visão textual Majoritária:

“A maneira, entretanto, pela qual Deus preserva a Palavra inspirada, não é explicitada na Bíblia, devendo ser concluída por investigação adequada das evidências históricas. Na concepção dos defensores do texto majoritário, as evidências históricas indicam que a preservação do texto do Novo testamento não ocorreu através da preservação sobrenatural dos autógrafos, nem pela inspiração dos copistas, guardando todos eles de erro, nem de uma determinada edição do Textus Receptus, nem em um número não representativo de manuscritos contraditórios provindos de uma única região. Para eles, o texto original foi preservado na grande massa de manuscritos de todos os tipos, procedentes de lugares variados, ao longo dos séculos” (pp.125-126).

            Após tratar sobre os métodos de investigação textual dos proponentes do texto majoritário, o autor também está ciente de alguns problemas relacionados a essa teoria. Por fim, o capítulo 5 trata acerca da problemática envolvendo o chamado “final longo de Marcos”, onde o autor defende com vigor o final tradicional de Marcos, a partir da tradição majoritária. Na conclusão, é uma breve recapitulação do que foi tratado, chegando às considerações finais. Há ainda dois apêndices, o primeiro mostrando a história do Texto Impresso no segundo sugestões para pesquisa direcionada a estudantes de bacharelado e mestrado. Dentre as sugestões destacam-se a pesquisas sobre a manuscritologia na Idade média e dentre os puritanos, finalizando, assim, a obra.

  • Análise.

            A obra de Anglada apresenta uma qualidade impressionante no que diz respeito a uma visão que honra as escrituras, mas não deixa de estar sujeita a críticas em certas afirmações. Vejamos pontos positivos e negativos a seguir.

  1. Pontos positivos:

a) Primeira obra publicada no Brasil a defender o texto Bizantino: Em um mercado saturado com obras que defendem a baixa-crítica do novo testamento segundo os padrões de Westcott e Hort, a obra de Anglada é um contra-ponto adequado e equilibrado, dentro de uma perspectiva reformada-confessional, algo raro no Brasil. A maioria das defesas em prol do texto-tipo bizantino são de fundamentalistas, que defendem de maneira de maneira implacável o Textus Receptus.

b) Apresentação clara das três perspectivas quanto ao texto do Novo Testamento: o pastor Anglada mostra, de maneira clara e sistemática, as três visões textuais acerca do texto do Novo Testamento: os defensores do Textus Receptus, do texto Eclético e do Texto Majoritário (sendo este último uma atualização da primeira). Em geral, a obras que defendem o texto crítico colocam os proponentes do Textus Receptus e Majoritário no mesmo grupo. Ainda que as semelhanças sejam enormes entre os dois grupos, e haja em certas ocasiões uma cooperação mútua, há diferenças evidentes nas metodologias de cada um. Basta consultar as obras de Frederick Nolan e Edward Hills (que defendem o Textus Receptus) e a visão de Zane Hodges e Maurice Robinson (que defendem o Texto Majoritário em sua configuração moderna) para ver a diferença entre as escolas.

c) Correta diferenciação entre os defensores do Textus Receptus: o autor consegue notar a diferença entre os defensores eruditos moderados do Texto Recebido, como Edward Hills e os de linha radical como D. A. Waite, Peter Rucknahm e Gail Riplinger. Algo também não diferenciado pelo opositores do Texto tradicional.

d) Excelente crítica quanto à escola histórico-crítica e a produção do texto crítico do Novo Testamento: O Brasil carecia de uma obra que combinasse tanto questões técnicas quanto uma defesa firme do Texto Grego Tradicional, partida de um erudito que valoriza a piedade cristã e o método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras. Com exceção da obra de Wilbur Pickering, o mercado brasileiro está repleto de obras que defendem o método histórico-crítico, dentre os quais se destacam Wilson Paroschi, Kurt Aland, Daniel Wallace e Bruce Metzger. O livro de Anglada faz uma crítica respeitosa, porém firme, a um criticismo textual que não honra as Escrituras como Palavra de Deus. Só esse motivo já é suficiente para considerar tal obra como importante.

II.Pontos negativos:

a) A Falta de uma análise mais justa acerca da obra de Edward Hills: Anglada faz crer que os defensores do Textus Receptus não analisam as evidências. Mesmo fazendo uma diferença entre os defensores moderados e radiciais do Textus Receptus, em sua crítica a corrente textual, ele parece jogar todos no mesmo pacote, mesmo Edward Hills. Ainda que reconhecendo a excelente erudição de Hills (graduado em latim e Phi Beta Kappa da universidade de Yale, bacharel em Teologia pelo Westiminster Theological Seminary, mestre em teologia pelo Columbia Theological Seminary e doutor em Crítica textual pela Universidade de Harvard), as críticas que faz a Hills são pungentes:

 “ A defesa do Textus Receptus fundamenta-se e é inteiramente explicada pela doutrina da preservação providencial. Entretanto, visto que as escrituras não declaram explicitamente a preservação de um determinado tipo de texto (no caso, do Textus Receptus), o uso da doutrina é muitas vezes abusivo e injustificado. A aceitação das explicações de Hills e de outros proponentes do TR é matéria de pura fé na interpretação que eles oferecem”(Anglada, p.94).

Há muito que se pode dizer em defesa de Hills (e outros defensores do Textus Receptus), que abraça o Textus Receptus como um texto legítimo. Partamos para alguns deles:

 a.1) A filosofia cristã de Hills é Reformada e Pressuposicional.

Como estudante do Westminster Seminary, Hills foi treinado pelo célebre Cornelius Van Till, que defendia uma forma distinta de apologética: A apologética pressuposicional, que ao contrário da clássica ou evidencialista, parte do ponto de partida para uma cosmovisão saudável a pressuposição do Deus Trino como revelado na Escritura, atentando nas proposições nela contidas. No dizer de Hills: “nas escrituras, Deus revela: “a si mesmo, não meras evidências da sua existência, não meras doutrinas acerca de si mesmo, não uma mera história de seus lidar com os homens, mas A SI MESMO” (The King James Version Defended, p.4) e ainda: “As escrituras, portanto, são o fundamento da fé. Nelas a revelação de Deus acerca de si mesmo não é obscurecida pelo erro humano” (Believing Bible Study, p.4). Haja vista que as Escrituras declaram claramente que seriam preservadas no passar das eras, de maneira perfeita pelo Senhor (Mt 24.35), o que nos leva a atentar para a preservação divina através da história do texto bíblico, algo que está em sintonia com o que se encontra nas confissões de fé de Westminster, Londres e Savoy. Por isso, o que Hills faz é integrar pressupostos bíblicos (a lógica da fé) com a história do texto, todavia, o faz sem torcer as evidências a seu favor, pelo contrário, como crítico textual habilitado, Hills mostra que a questão não é entre os que defendem o Textus Receptus de maneira cega e os defensores do Texto Eclético (e até mesmo do Majoritário), com base do estudo científico, mas sim na interpretação que se dá acerca das evidências.

Tratando acerca dos estudos feitos dentro da perspectiva naturalista, Hils comenta:”Há dois métodos de Criticismo Textual do Novo testamento, o método cristão consistente e o método naturalista. Estes dois métodos lidam com o mesmo material, os mesmos manuscritos gregos, e as mesmas traduções e citações bíblicas, mas eles interpretam esse material de forma diferente”(King James Version Defended, p.3) e acrescenta: “Nos estudos bíblicos, na filosofia, na ciência, e em qualquer outro campo do saber devemos começar com Cristo e aí então trabalhar nossos princípios básicos de acordo com a lógica da fé. Este procedimento nos mostrará como utilizar o aprendizado vindo de eruditos não-cristãos de uma forma que nos aproveitemos de seus estudos.” (King James Version Defended, p. 114).  Rebatendo a afirmação que isso leva a um agnosticismo intelectual, Hills afirma:

“Isso significa que nos tornamos obscurantistas? e perdemos todo o nosso interesse nos estudos textuais do Novo testamento? Nós franzimos a testa no estudo dos manuscritos do novo testamento e desencorajamo-lo por medo de provar que estamos errados? de modo nenhum! Pelo contrário, congratulamo-nos com a investigação honesta dos documentos do novo testamento, tanto mais que os resultados dos últimos 300 anos de tais estudos, bastante interpretados, apoiaram as reivindicações do Texto Tradicional e do Textus Receptus” (Believing Bible Study,p.214-215).

a.2) Hills não defende uma visão perfeccionista do Textus Receptus.

Ainda que possa haver uma tendência em Hills defender o Textus Receptus de forma indiscriminada, ele claramente mostra que não concorda com as emendas conjecturais feitas por Calvino e em especial por Theodore Beza na publicação de seu texto grego. Para ele, o Textus Receptus não se reduz a uma única edição, mas um conjunto de várias edições que apresentam essencial e substancialmente o mesmo texto, ainda que haja pequenas variações em um lugar e outro. Acera da presença de algumas variantes textuais, Hills comenta:

“..Deus não revela todas as verdades com igual clareza. Na crítica textual bíblica, como em qualquer outro departamento do conhecimento, ainda há alguns detalhes em relação aos quais devemos nos contentar em permanecer incertos. Mas a providência especial de Deus tem mantido estas incertezas para baixo a um mínimo. Portanto, se acreditarmos na preservação providencial especial das Escrituras e fizermos deste o princípio principal de nossa crítica textual bíblica, obtemos certa certeza, toda a certeza que qualquer homem pode obter, toda a certeza de que precisamos.” (King James Version Defended, p.224)

a.3) A visão de Hills é Reformada e a estrutura de seu pensamento segue a linha de Cornelius Van Till.

Tanto no Livro The King James Version defended, quanto em sua obra gêmea Believing Bible Study, Hills deixa claro que, para se abordar o material acerca do criticismo textual, não se apode adotar uma perspectiva naturalista. Aqui vemos a perspectiva da apologética pressuposicional na defesa dos manuscritos do Novo Testamento.

b) Anglada apresenta uma opinião comum acerca de Erasmo e da publicação do texto grego, em especial sobre Apocalipse: O pastor Anglada acaba repetindo alguns mitos acerca do último capítulo do livro de apocalipse no Texto grego editado por Erasmo, onde supostamente o erudito Holandês retraduziu o texto da vulgata para o grego. O grande problema é que não há nenhuma evidência concreta que esse tenha sido o caso, e tal história vem sendo amplamente contestada por alguns estudiosos modernos, juntamente com os chamados “mitos erasmianos”, dentre os quais destacam-se a história da “pressa” em Erasmo de publicar seu texto grego, a história do Comma Johanneum (1 Jo 5.7) no Texto Recebido, os poucos manuscritos utilizados por Erasmo, etc. Tais mitos são analisados com detalhes por Jeff Ridlle, pastor reformado e estudioso de questões textuais, podendo serem estas lidas com detalhes aqui.

c) A visão do Texto Majoritário não é necessariamente Reformada: Ainda que colocada como uma posição totalmente reformada e adotada por alguns professores reformados como Jakob van Brueggen, a perspectiva do texto Majoritátio surgiu dentro de um contexto dispensacionalista de alguns professores do Dallas Theological Seminary, como Zane Hodges, William Farstard e Wilbur Pickering, ainda que tais homens sejam conhecidos por sua piedade e teologia conservadora, a visão que mais se aproxima da perspectiva reformada e está em acordo com a confissão de fé de Westminster é a adotada por Hills.

d) Pouco realmente se dá valor às pressuposições na hora da metodologia do estudo dos manuscritos, fazendo com que a estrutura se assemelhe a da crítica, no que tange à linha de estudos: Ainda que haja méritos notáveis na posição do Texto Majoritário (que muito se assemelha a posição do Textus Receptus), o método em si acaba por também querer passar uma visão de neutralidade e objetividade científica, e também acaba por tentar, ainda que em menor escala, fazer uma reconstituição do texto original do Novo Testamento em grego. Tal perspectiva passa uma ideia de erudita e agrada a ouvidos acadêmicos, porém não necessariamente está totalmente de acordo com os princípios da Palavra de Deus. O conselho de Hills é precioso aqui: “ O criticismo textual do Novo Testamento do homem que crê na inspiração e preservação providencial das Escrituras como verdadeiras difere daquele que não crê assim…o homem que abraça essas doutrinas como verdadeiras é incoerente se ele não as der um lugar proeminente em seu tratamento do texto do Novo testamento, um lugar tão proeminente que faz com que  criticismo textual do Novo testamento seja diferente do criticismo de livros antigos, pois se essas doutrinas são verdadeiras, elas demandam tal lugar” (King James Version Defended, p. 3)

– Conclusão:

A despeito de certas incoerências na defesa de Anglada do Texto Majoritário, e a falta de observação nos detalhes concernentes à visão Reformada do Textus Receptus, a obra em si tem muitas qualidades e é uma boa fonte de consulta para seminaristas, professores de escola dominical e pastores – além do público geral. É um alívio editorial em um mercado saturado de obras que promovem o texto crítico.

Augustus Nicodemus fala acerca das Traduções Bíblicas

Em 2012 a Editora Fiel divulgou no youtube um trecho onde o pastor Augustus Nicodemus Lopes (editor do excelente blog O Tempora O Mores!) trata acerca da questão das traduções bíblicas, desde o texto grego adotado até os métodos de tradução existentes. Vale a pena dar uma conferida (segue-se depois um comentário adicional).

Particularmente apreciei bastante o comentário de Nicodemus. Sensato e equilibrado, ele dá um bom panorama das versões bíblicas. Todavia  alguns pontos, creio eu, devem ser ponderados um pouco mais. Dos textos citados por exemplo, o final do Evangelho de Marcos (Mc 16:9-20), a perícope da Adultera no evangelho de João (Jo 7:53/8-11) e a Cláusula Joanina na 1 Epístola de João (1 Jo 5:7) são as diferenças mais polêmicas (há milhares de outras) entre as edições do Texto Crítico, preparado por eruditos modernos a partir de dois manuscritos mais antigos, o Sinaiticus e o Vaticanus e o Texto Receptus /Majoritário, que se baseia na maioria dos manuscritos gregos, É esse último que os reformadores e protestantes utilizaram em seus estudos e traduções como a King James, Reina-valera e Almeida (Revista e Corrigida e Corrigida Fiel) Um fato importante que Augustus não menciona é a questão do texto bíblico e os pais da Igreja. Pais como por exemplo Justino Mártir, no século II fazem alusão ao texto de Marcos (Assim como Irineu no século III), Cipriano à Clausula Joanina no século IV e Jerônimo à mulher adúltera no século IV igualmente. Todas essas testemunhas fortalecem o Texto Tradicional (Receptus/Majoritário) e são tão antigas quanto os manuscritos mais antigos.

Dentre essas traduções, as baseadas no texto crítico são todas as modernas, como a Atualizada, NVI, BLH e Almeida Século XXI. Em termos de método de tradução, creio que há um risco muito maior em querer traduzir o sentido do texto do que buscar reproduzir o texto em si. A título de comparação, pegue o texto grego, uma tradução literal e a linguagem de hoje. A diferença é gritante. É óbvio que há pontos positivos nessas traduções, elas têm a utilidade mais como comentário do que como tradução propriamente dita. Há muito do que se falar acerca das questões textuais, todavia, creio que cabe ao crente buscar agradar à Deus com uma boa versão bíblica, baseada em um bom texto grego. A meu ver, o Texto Tradicional se candidata como o som de um trovão.

Soli Deo Gloria

Considerações acerca do Texto Original do Novo Testamento.

Nota: O artigo a seguir é uma adaptação e revisão de dois artigos escritos em 2008 por mim  no blog Geração que Lamba (hoje, chamado Servorum Dei). Sendo dividido em duas partes, podendo ser acessado aqui.

É muito comum ouvirmos dentro dos círculos evangélicos conservadores, em especial no

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Papiro do Evangelho de João, de cerca de 250 d.c., estava sendo vendido no e-bay! Fonte: N. Y. Times

que tange a apologética, a expressão: A Bíblia é totalmente livre de erro (inerrante) nos manuscritos originais”. Ainda que tal frase seja em termos gerais correta, o grande problema que perpassa tal ideia é que se defendermos que as escrituras são inerrantes nos originais(e subtendido nesta expressão se encontra a partícula “apenas”), teremos sérios problemas na área da apologética e da própria vida cristã.  Questionemos, então, algumas afirmações que acabam por sustentar a ideia de uma Bíblia “inerrante” apenas nos manuscritos originais.

É falácia afirmar que só os originais do Novo Testamento são isentos de erros.

É extremamente falacioso afirmar que só os originais gregos do Novo Testamento foram isentos de erros. Caso seja adotado esse tipo de raciocínio, a apologética cai de duas formas: uma, se só os originais foram isentos de erros, então podemos apelar, num sentido extremo, que todos os aperantes erros da Bíblia não se encontravam no Autógrafo (o texto que saiu da pena do escritor inspirado). Ou então podemos ter a dúvida constante se realmente o texto que temos em mãos é de fato o texto bíblico original, pois quem me garante que este tenho no qual tenho em mão não tenha sido corrompido pelo tempo? Será que Paulo quando afirmou que toda a Escritura é inspirada (2 tm 3:16-17) possuía o original hebraico de Moisés e dos profetas? Certamente que não, todavia, ele considerou a sua cópia como Palavra de Deus Infalível e Inerrante. Como pode ser? Simples, as cópias e traduções não foram inspiradas por Deus, todavia qualquer cópia fielmente copiada é Palavra de Deus(claro entre algumas cópias hás certos erros e discrepâncias facilmente perceptíveis e corrigíveis sem dano algum), uma vez que é a cópia exata do Texto Inspirado.

É um erro analisar a Bíblia como um livro comum.

Da feita que se adota um pressuposto secular para o estudo da Bíblia, perde-se o consenso que  esse livro, de forma alguma, é como qualquer outra obra. Uma vez que ele  e revela fatos e verdades eternas, há uma constante luta entre o bem e o mal por ele, de um lado, temos Satanás tentando destruí-lo e Deus o preservando-o, de um lado temo copistas fiéis e que buscavam a qualquer custo reproduzir o conteúdo escrito sem alteração alguma. Dou outro, temos os mais diversos hereges e pessoas sem compromisso com a palavra de Deus, pervertendo-a em favor de seus propósitos escusos, torcendo, adulterando, subtraindo e adicionando coisas mais novas. Dessa forma, é impossível afirmar que o processo de cópia não teve perversões intencionais.

É um mito afirmar que só a Alta Crítica é danosa ao texto bíblico

Muitos tem afirmado que somente a Alta Crítica é danosa, da qual  houve vários expositores alemães, que negavam a autenticidade da Bíblia e a autoria de Moisés como autor do Pentateuco, que teve como grande expositor o teólogo liberal Julius Welhaussem.

Grandes apologetas e teólogos ortodoxos afirmam que a baixa crítica é um meio seguro de se estudar a Bíblia, não trazendo nenhum tipo de prejuízo para a Sagrada Escritura. Será isso verdade? Não creio. O motivo é o que se segue: a baixa crítica não procura denegrir ou desautorizar a autoria do texto do Novo Testamento, porém busca ver quais palavras realmente fazem parte do texto Sagrado, os possíveis erros existentes, as falhas do escriba e até que ponto esse texto não foi corrompido. Adota-se então, os pressupostos seculares de estudo da Bíblia, onde querendo ou não, ela deve ser estudada como um livro como qualquer outro. Não seria isso uma busca de determinar aquilo que Deus disse ou não disse? Não seria a busca de um cânon dentro de um cânon? Muitos tentam se esquivar dessa afirmação, como faz o excelente Norman Geisler em sua Enciclopédia de Apologética. Para Geisler, a tarefa da critica textual não é determinar o Cânon, mas sim quais palavras fazem parte dele¹, a meu ver, isso dá no mesmo. Querendo ou não, a crítica textual (entende-se aqui a Baixa-Crítica) põe em cheque a autoridade total do Cânon de maneira ainda mais delicada do que a própria Alta-Crítica.

Edward Hills faz uma análise interessante entre o reconhecimento dos livros canônicos do Novo Testamento e a escolha do tipo de texto usado:

Assim como o Espírito Santo guiou os cristãos primitivos para reunir os livros NT individuais em um cânone e rejeitar todos os livros não-canônicos, da mesma maneira também o Espírito Santo guiou os primeiros cristãos a preservar o texto Novo Testamento recebendo as leituras verdadeiras e rejeitando as falsas. Certamente, seria estranho se Deus tivesse guiado Seu povo em relação ao cânon do NT, mas tivesse retido de sua assistência divina na questão do texto do NT. Isso significaria que os cristãos crentes na Bíblia de hoje não poderiam ter certeza quanto ao texto do NT, mas seriam obrigados a se basear nas hipóteses dos críticos modernos e naturalistas²

O Texto Grego do Novo Testamento.

O texto grego do novo testamento apresenta um fator histórico importante. Com a separação da Igreja Imperial em duas: a Católica Romana (Latina), e a Ortodoxa Oriental (Grega) em 1054. As cópias gregas ficaram restringindo-se ao mundo de fala grega, enquanto que o ocidente adota a Vulgata Latina de Jerônimo, um texto cotejado com o grego. Com a invasão islâmica no oriente, muitas cópias gregas do Novo Testamento entram no Ocidente Latino, onde muitos Humanistas e padres começam a estudá-lo e ver significativa superioridade entre o texto Latino. Dentre os quais o grande erudito Erasmo de Rotterdam, que durante muito tempo, vasculhando as bibliotecas da Europa, e tendo sendo guiado por aquilo que o estudiosos crítico textual Edward F. Hills classificou como “Fé Comum”. Ou seja, a fé na orientação de Deus com relação ao texto Sagrado. Tendo como base em primeiro lugar o texto grego e em segundo o texto latino, Erasmo buscou reunir todo o Novo Testamento em um só volume, não nas mais diversas cópias. Depois de um estudo forte e com afinco, Erasmo publicou o texto grego que viria depois a ser conhecido com o Textus Receptus, em português, significa o Texto Recebido, em 1516. Lutero utilizou a edição de 1519 para a tradução de sua Bíblia em Alemão, Erasmo também publicou edições em 1522,1527 e 1535.

As duas últimas incluíram mudanças da Poliglota Complutesiana, que foi impresso em 1514, porém só teve circulação em 1522. Era muito parecido com o texto de Erasmo, com algumas distinções. Houveram outras impressões, como a de Stephens, Teodoro Beza (que dava grande dignidade ao texto recebido) e dos irmãos Elzevir, no qual ficou conhecido como Textus Receptus. Na Inglaterra, Textus Receptus foi identificado como o de Stephens. Todas as edições apresentam pouquíssimas diferenças entre si, praticamente nenhuma. No século XIX, F. H. A. Scrivener publicou duas edições do Textus Receputus, uma com o texto de Stephanus como base e leituras variantes de outros textos, e a outra, mais famosa, uma edição do textus Receptus que procura reproduzir as leituras variantes das diferentes edições usadas pelos tradutores da King James.

O Textus Receptus é o texto base das traduções da época da Reforma. Foi com base nele que surgiram  traduções como a de Lutero, a King James Version, a de Cassiodoro de Reina( espanhola) e a tradução de Ferreira de Almeida, muito apreciada no Brasil. É inegável fato da importância e do valor do Textus Receptus para a igreja contemporânea em crise.

Entendendo a Baixa crítica

A Baixa crítica é formada em sua maioria por estudiosos que durante seus estudos de manuscritologia, se apartaram do texto bíblico tradicional, editado na época da reforma por Erasmo de Rotterdan( levemente modificado em suas outras edições, feitas por ele próprio, Teodoro Beza os irmão Elzevir e Robert Stephanus), preferindo um texto mais “moderno” baseado, segundo eles, em manuscritos mais antigos e confiáveis do texto bíblico. Antes de adentramos sobre a qualidade interna destes manuscritos, cabe avaliar sua história e de como o atual texto moderno predomina na preferência da crítica textual do Novo Testamento.

Do século XVI ao século XIX (e início do XX) 0 Texto Recebido, formado pela majoritária gama de manuscritos bíblicos em grego existentes até então, oriundos das mais variadas regiões do antigo império romano, era considerado o texto definitivo do Novo testamento, haja vista que ele reuniu definitivamente em um só volume o conteúdo dos manuscritos bíblicos até então. O Texto Recebido também recebeu o nome de Texto Majoritário (não utiliza mais esse nome por razões que veremos mais adiante) e Texto Bizantino (Antioquia).

No decorrer dos tempos a crítica textual foi mudando consideravelmente, influenciando também a manuscritologia bíblica*, além do liberalismo teológico que começou a varrer a Europa no século XVIII. No século XIX, de forma surpreendente, dois manuscritos gregos até então desconhecidos são altamente popularizados por dois sacerdotes anglicanos, Brooke Fess Westcott e John Anthony Hort.

As origens desses manuscritos são motivos de polêmicas no meio textual, e ainda mais polêmica e estranha foi a história de suas descobertas. O primeiro texto a ser descoberto, foi o manuscrito conhecido como Aleph, foi encontrado pelo explorador de textos antigos Constantin Tischendorf, em visita ao mosteiro de Santa Cantarina, no monte Sinai. Ao se deparar com alguns manuscritos que seriam utilizados para acender o fogão do mosteiro³, Constantin os retirou e atentou para seu conteúdo, que incluía O Pastor, de Hermas ( antigo documento patrístico), a Septuaginta, a Epístola de Barnabé e um Novo Testamento completo. Tischendorf ainda tentou negociar os manuscritos com o monges, mas eles recusaram-se vendê-lo, permitindo que ele apenas copiasse uma página. Depois de alguns anos, ele conseguiu finalmente o manuscrito, onde o levou para a Rússia, e posteriormente, a Alemanha, copiando seu material e o publicando em quatro volumes. Constantin também conseguiu, de forma semelhante ao Sinaiticus, acesso ao Codex Vaticanus, guardado na biblioteca do Vaticano. Este por sua vez é tão antigo quanto Aleph(também conhecido como Sinaiticus e B’).

O manuscritos possuíam algo que os diferenciava dos demais: a idade e o local de origem. Enquanto que os manuscritos bizantinos eram oriundos de regiões de Constantinopla, cidade apoiada pela “escola teológica” de Antioquia, Os manuscritos Sinaiticus e Vaticanus eram provenientes de Alexandria, no Egito, sendo esta uma considerável rival de Constantinopla. A idade dos manuscritos bizantinos, extremamente concordantes entre si, é do século V em diante, enquanto que os manuscritos alexandrinos são do século IV (sendo o Vaticanus ligeiramente mais novo que o Sinaiticus e em melhor estado de conservação.

É nesse contexto que surgem a figura de Broke F. Westcott e Anthony F. Hort. Ambos estudiosos anglicanos, influenciados pelas descobertas de novo manuscritos e pelos estudos da crítica textual da época – recentemente tinham publicado um livro de criticismo textual onde defendiam a teoria que manuscritos alexandrinos seriam melhores e mais próximos dos originais do Novo testamento –  os dois amigos empreenderam a tarefa de editar um novo texto, utilizando novos tipos de conceitos de crítica textual, tendo com objetivo substituir o Textus Receptus. O resultado foi o primeiro texto crítico do Novo testamento a influenciar de maneira significativa o mundo cristão conservador – em especial através da figura de B. B. Warfield – e também a academia secular: o  New Testament in Greek (1881) – Outros já tinham produzido textos críticos, porém não com tanto sucesso como Westcott e Hort. Baseado em ambos manuscritos alexandrinos (Alef e B), o texto era profundamente distinto do Texto Grego Tradicional do Novo Testamento, apresentando leituras diferentes, omissões e adições não encontradas no texto grego tradicional.

Um novo texto surgiu, e consequentemente, novas Bíblias viriam. Logo surgiu a Revised Version, que foi uma tentativa de atualizar a King James de acordo com o texto de Westcott e Hort, entretanto, tal empreitada não  obteve o sucesso esperado, pois a maioria das igrejas continuou usando a King James Version como Bíblia padrão, situação essa que nos Estados Unidos durou até o final da década de 70, com a publicação da New International Version. Houve opositores da teoria de Westcott e Hort, como John William Burgon, Frederick Scrivener e Herman Hoskier, que preferiram o texto encontrado na maioria dos manuscritos. No século XX, o texto grego tradicional não ficou sem defensores, como Edward F. Hills, Theodore P. Letis, Wilbur Pickerng e Jakob van Bruggen. Porém a grande maioria das traduções modernas opta por textos gregos que seguiram a linha de Westcott e Hort, ainda que mantenham uma leitura tradicional aqui e ali. Terá sido saudável essa atitude, afinal, quais eram os pensamentos teológicos de Hort e Westcott? É justa a metodologia da crítica textual? São questões pertinentes que não podem ficar sem resposta, ou pelo menos com devidas avaliações.

Conclusão

No pensamento deste autor, o método e pressupostos da crítica textual como adotada por críticos naturalistas (e mesmo cristãos conservadores) não honra a Bíblia como Palavra eterna de Deus, mas a trata como um simples livro humano sujeito as intempéries do tempo, e não como um livro providencialmente preservado por Deus e em constante uso na igreja. Esse tipo de método da crítica textual nunca consegue chegar a um consenso acerca do texto grego original, sempre o que há são constante tentativas de se chegar mais próximo a um possível autógrafo  bíblico através de um método reconstrucionista. Ainda que teólogos conservadores cheguem a afirmar que já temos um texto original reconstruído pela crítica textual, não se pode dizer que seus colegas liberais e que lidam om mais frequência com manuscritos pensem assim (sem contar que tal texto pode mudar a qualquer momento a partir da possível descoberta de novos manuscritos).

Por fim, diante de tais resultados, a ideia de que somente os textos originais do Novo testamento são inspirados, mas que não possuímos tal texto atualmente, devendo este ser reconstruído pela crítica textual não possui valor algum para apologética e defesa da Bíblia como palavra inerrante de Deus. A perspetiva que temos que ter é a que afirma que o texto original foi providencialmente preservado em cópias autênticas no decorrer dos séculos,e ainda que tais cópias possam conter falhas de copistas, o texto que chegou até nós na maioria dos manuscritos e editado em forma impressa moderna na época da reforma, é o texto que reflete acuradamente o original. Ao fazer isso, não somente prezamos pela integridade do Texto original (o que é mais importante), mas também pela nossa própria coerência e integridade teológica. Certamente com  isso todos seremos abençoados.

Soli Deo Gloria

Notas:

1.GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética.Tr. Lailah de Noronha São Paulo: Editora Vida, 2002.p.743
2.Hills, Edward. Believing Bible Study. 3ª ed.Des Moines: Christian Research Press, 1991.p.33.
3.É controversa essa história, sendo que alguns, como Daniel Wallace, sugerem que ela seja apócrifa.

Três Perspectivas sobre o Texto do Novo Testamento Grego

Quando se lida com a disciplina de crítica Textual, o resultado dos estudos certamente 6a013488b5399e970c01a3fd3e0249970b-500witanto influenciará quanto receberá influência sobre outro tópicos relacionados às Escrituras, como por exemplo acerca do método de Tradução do Texto grego (equivalência formal ou dinâmica), o texto grego adotado (Bizantino ou Alexandrino), a pregação (essa passagem se encontra nos “manuscritos originais”?), e até mesmo a confiança na Bíblia como Palavra Inspirada de Deus. Várias respostas tem sido dadas e posições tem sido tomadas com relação ao Texto do Novo Testamento Grego, como veremos a seguir. Basicamente, existem três perspectivas (e obviamente, subgrupos dentro delas). no que tange ao estudo do Novo Testamento Grego). Vejamos:

A posição Reconstrucionista do Texto do Novo Testamento: É a posição que defende que na análise dos manuscritos do Novo Testamento o método adotado deve ser o mesmo método de análise de qualquer outro livro da antiguidade, sendo que estes sofreram pela corrupção textual no decorrer do tempo. É trabalho da crítica Textual identificar o texto original através de uma reconstrução hipotética com base nos cânones da Crítica Textual. Essa perspectiva é adotada pelos teólogos liberais e histórico críticos e, com algumas alterações, pela grande maioria de estudiosos cristão conservadores da atualidade, como Norman Geisler, D. A. Carson, Michael J. Krüger, entre outros . Essa posição adota o chamado Texto Crítico do Novo Testamento, que por sua vez, é baseado nos dois manuscritos do Novo Testamento originários da região do Egito (conhecidos como Alexandrinos).

A Posição do Texto Majoritário: Essa posição tem como ponto de partida a edição de um texto grego que reflete o texto encontrado na maioria dos manuscritos gregos, do 5º século em diante, conhecidos como Bizantinos. Os métodos de estudo são feitos através de uma abordagem  reconstrucionista diferente, que dá mais espaço a uma visão confessional acerca do texto. Os defensores dessa perspectiva são cristãos evangélicos conservadores como Wilbur Pickering, Maurice Robinson e Paulo Anglada.

A posição Tradicional/Confessional: Defende que o Novo Testamento grego foi preservado providencialmente por Deus no decorrer dos séculos, de sorte que o que temos hoje é uma representação fiel do Texto original refletido substancialmente nas diversas edições do chamado Textus Receptus. A posição reformada e clássica dessa posição é apresentada por Edward F. Hills, Theodore P. Letis, Jeff Riddle , Joel Beeke, entre outros.

Dentro desses três camadas principais, existem subgrupos, porém que não necessariamente representam oficialmente cada uma dessas posições. Ainda que haja nomes de eruditos de fino calibre em cada uma destas escolas, deve-se ter em mente que quando se lida com a disciplina de crítica Textual, adotar uma suposta visão científica ou reconstrucionista do texto bíblico foge do testemunho das Escrituras e do próprio Senhor Jesus, mas isso é um assunto a ser melhor tratado em outros posts. Por enquanto, o estudioso do Novo Testamento grego deve estar ciente  dessas três posições.

 

Soli Deo Gloria